quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Adolescentes, o Sexo e os Outros

Não é fácil ser-se adolescente. É um período de grandes mudanças a vários níveis: familiares, sociais, emocionais, pessoais. É nesta fase que, de certa forma, o adolescente se torna pessoa, procura ganhar autonomia e tenta perceber qual a sua posição no mundo, sendo necessário, muitas vezes, dar algum significado à sua própria existência. Daí que esta seja também uma época de grandes ideais em que o adolescente é capaz de se empenhar em causas de uma forma que dificilmente fará noutra altura da sua vida.

O corpo é o lugar de muitas destas mudanças. Este corpo vai progressivamente adquirindo características de adulto e perdendo os traços de criança. Não é pouco frequente a sensação de se estar a habitar um corpo estranho, como se um dia o adolescente tivesse acordado e descoberto ter encarnado num invólucro desconhecido que se controla com alguma dificuldade. Pior, este corpo parece ter vontade própria, e quando menos se espera tem reacções estranhas: a cama aparece molhada de manhã, quando se acorda; começa-se a sangrar dos sítios mais inesperados e sensações estranhas surgem quando se fica excitado sexualmente.

É, desta forma, natural que o adolescente se sinta invadido por dúvidas. Elas estão relacionadas com aquilo que se passa no seu corpo nesta fase, com estas transformações e erupções que o deixam algo perplexo. É compreensível, assim, que ele procure esclarecer estas dúvidas das formas que puder. É algo que lhe diz respeito, que o perturba e espanta.

Esta necessidade do adolescente em esclarecer as suas dúvidas e os meios que ele encontra para o fazer leva a que a sexualidade, nesta fase da vida se transforme numa moeda de troca para com o mundo. Ou seja, ao ter que ir buscar a informação que não tem, em algum local, o adolescente vai ter que entrar em diálogo e em interacção com o seu meio. A sexualidade transforma-se, assim, num importante significante utilizado pelo adolescente nas suas interacções com os outros.

Antes ainda de procurar a sua informação directamente naqueles que o rodeiam, o adolescente vai procura-la nos meios que tem disponíveis ao seu alcance. Isto porque já percebeu que a sexualidade não é uma temática acerca da qual se fale abertamente. Já sabe que poderá ser repreendido se falar sobre o assunto ou, então, que irá provocar constrangimento se o fizer. Assim, há que ter cautela e, primeiro, procurar pelos próprios meios a informação desejada. E, actualmente, tal não apresenta qualquer dificuldade.

É comum a discussão sobre questões ligadas à sexualidade nos meios de comunicação social, nomeadamente em revistas dedicadas aos próprios adolescentes; a internet é um meio que os jovens dominam e que permite o acesso a uma grande quantidade de informação, entre a qual se encontra uma vasta quantidade de dados sobre sexo; várias linhas telefónicas de ajuda existem sobre esta temática, nas quais os jovens, na segurança proporcionada pelo anominato, podem colocar e esclarecer as suas angústias mais intímas.

Em todos estes meios nos quais o adolescente procura informação, reina ainda o silêncio na comunicação. Existe uma procura activa da informação, mas de forma preferencialmente não interactiva, ou seja, de forma que não implique uma comunicação com os outros sobre o interesse relativo ao sexo.

No entanto, esta fase informativa faz com que o adolescente tenha já muitos dados, quando passa a uma outra fase – a fase da procura de informação junto dos outros. E esta fase surge muito da necessidade de verificar se aquilo que ele sente e se aquilo por que está a passar é unico, ou se existem outros que tenham a mesma experiência. Não raras vezes o jovem se questiona sobre a normalidade dos seus sentimentos, já para não falar das dúvidas sobre as formas do seu corpo.

O investimento de atenção e energia sobre o corpo, justifica-se pelos factores inerentes ao seu próprio crescimento e também pelo facto de o corpo passar a ser, ele também, um poderoso meio de comunicação. Meio de comunicar estados afectivos, meio de protestar contra o sistema, contra os pais, contra a escola, mas também de demonstrar interesse, disponibilidade ou indisponibilidade em relação aos outros. De chocar ou atrair. Assim, se já de uma forma não verbal se torna possível interagir com os outros, a utilização da palavra adquire um papel fundamental por permitir a troca de experiências e de informações. Com os amigos, falar sobre sexualidade adquire a função de moeda de troca.

Falar com os amigos e colegas é uma das formas mais habituais de aquisição de informação sobre sexualidade junto dos jovens. E é possível perceber porquê. É através dos amigos que o processo de socialização se efectua, nesta fase da vida. São os amigos que vão ser investidos na proporção directa de que os pais vão ser desinvestidos. É com eles que se cria uma intimidade emocional e afectiva que os torna confidentes dos problemas e angústias. Tornam-se conselheiros por excelência nos momentos difíceis, depositários dos sonhos e fantasias, dos projectos, bem como das ansiedades. Não é de estranhar assim que, em diversos estudos efectuados que abordam esta questão, os amigos surjam entre os principais meios de obtenção de informação em matéria de sexualidade. Seguem-se alguns desses dados:

54,1% dos homens e 32,8% das mulheres afirmam que os amigos influenciaram, até um certo ponto, a sua visão da sexualidade (Vasconcelos, 1998).
60,6% dos jovens do Concelho de Loures afirmam que os amigos constituiram fontes de informação sobre sexualidade, percentagem esta bastante superior à dos que afirmaram ter obtido esta informação junto dos pais (46,1%) ou de professores (15,5%) (Machado Pais, 1996).
55,2% dos jovens adultos afirmam ter obtido informação sobre os contraceptivos que utilizam junto dos amigos, valor este mais uma vez superior ao relativo aos pais (49,6%) ou aos professores (23,4%) (Nodin, 2001).

O facto de os jovens procurarem informação sobre sexualidade junto dos amigos tem as suas vantagens e desvantagens. Por um lado, sabe-se que a influência dos amigos se conta de entre as mais intensas neste periodo do desenvolvimento, acabando, por isso por ser uma moeda valiosa . As desvantagens prendem-se com o facto de que muitas vezes os conhecimentos que os jovens têm sobre sexualidade são incorrectos, fundamentados em crenças deturpadas ou pura e simplesmente falsas.

Caso particular relativo à obtenção de informação junto dos pares é o do parceiro sexual. Seria de esperar que se discutisse sobre sexualidade com a pessoa com quem se tem relações sexuais. No entanto, os estudos efectuados e que abordam esta temática demonstram o contrário. O que aponta no sentido de que, entre os casais de jovens, a sexualidade é como que uma pedra preciosa . É preciosa porque se constitui como objecto de troca física e emocional. No entanto, não se fala sobre ela, como se se tivesse medo de a perder. É um objecto de troca essencialmente a um nível não verbal. Faz-se mas não se discute aquilo que se faz. Como a prevenção ao nível da sexualidade implica que os parceiros de uma relação sexual sejam capazes de discutir as questões básicas de utilização do preservativo ou do método contraceptivo de sua eleição, esta dificuldade dos jovens pode implicar sérios riscos para a sua saúde.

Também os pais jogam um papel importante nesta procura de informação dos jovens sobre sexualidade. Relativamente a eles, pode-se dizer que são fontes de informação a peso de ouro . E por diversos motivos. Para começar, é no contexto da família que os jovens vão obter de tudo um pouco o essencial que lhes vai valer para a vida. O seu equilibrio emocional, a sua personalidade, os seus valores, todos são fortemente influenciados pela convivência e educação dos pais. Desta forma, também em matéria de sexualidade, o básico vai ser obtido no contexto social que melhor conhecem, ou seja, a família. Também aqui o não verbal tem um peso particularmente importante. É mais por aquilo que se presencia e que se observa do comportamento e atitudes dos pais que as crianças e os adolescentes vão construindo o seu próprio conceito de sexualidade.

Assim, mesmo nas famílias em que não se fala sobre este tema, as questões associadas aos papéis de género, ou seja, as tarefas que são consideradas como sendo da responsabilidade dos homens e das mulheres, a expressão dos afectos, de entre muitas outras questões, são fornecidas logo com o leite materno. Daí que seja quase um lugar comum dizer que a educação sexual se faz desde o berço e essencialmente pelos pais, primeiros agentes no processo de transformar a criança em pessoa. O peso de ouro que os pais adquirem neste processo advém exactamente desta sua função. Até porque não é necessário que se fale sobre sexualidade em casa para que, logo à partida, os adolescentes adquiriram toda uma postura face a estas questões que os vai acompanhar durante toda a sua vida.

Isto não quer dizer que não seja necessário falar de sexualidade em casa. Tal é, não só importante, como essencial para o à-vontade com que os jovens irão encarar a sexualidade. Além de que lhes vai abrir as portas para que, de facto e de uma forma activa, procurem informação junto dos pais quando de tal necessitarem. Esta é a forma de os pais se transformarem, de facto, em pequenas grandes minas de ouro nas quais os jovens podem adquirir preciosas informações que lhes são tão caras.

Por último, mas nem por isso menos importantes, vêm os professores. Qual é o preço da informação que os professores podem dar sobre sexualidade? Qual o valor das suas atitudes e posturas no decurso das suas aulas e fora delas? Há que não esquecer que uma parte considerável do tempo dos jovens é passado em contextode sala de aula com os seus professores e professoras. Assim, se é com os pais que o básico da personalidade e capacidades dos jovens se vai formar, é com os professores que uma vasta quantidade de informação pode ser colectada, consolidada e, desta forma, enriquecida a personalidade dos adolescentes, também no que respeita à sexualidade.

Da mesma forma que com os pais, esta transmissão de conhecimentos e valores não passa apenas por aquilo que se diz nas salas de aula, mas também por aquilo que se faz. As atitudes, gestos e posturas dos professores são um veículo de valores, conceitos e preconceitos sobre questões tão básicas como os papéis de género, o conservadorismo ou o liberalismo na abordagem da sexualidade. Um exemplo clássico é o do aparecimento da primeira menstruação a um arapariga na escola e da forma como a instituião escolar lida com esta situação. É tratada como um acontecimento natural? Ou como se de uma doença se tratasse? Como algo que deve ser comemorado? Ou ainda como algo que deve ser mantido em segredo? Além disso, quem é que se encarrega de falar com a rapariga sobre o sucedido? É o professor em cuja sala se deu a ocorrência, ou é chamada uma professora de propósito para o efeito? A rapariga é enviada para o gabinete de enfermagem e depois para casa?

Esta é uma sitação que faz parte do quotidiano da escola e, portanto faz parte do quotidiano quer dos alunos quer dos professores. Lidar com estas questões é estar já a fazer educação sexual. É também através da forma como o professor lida com estas questões que um adolescente se poderá sentir mais confortável em procura-lo para pedir ajuda para algum problema que tenha – por exemplo uma gravidez não desejada. Aqui as coisas funcionam um pouco como um fundo de investimento. Se os professores têm a disponibilidade e o à-vontade para abordar as questões da sexualidade na sala de aula, então mais facilmente os alunos se lhes irão dirigir com dúvidas nesta área e os procurarão se necessitarem.

Obviamente que nem sempre é fácil para os próprios professores falar sobre sexualidade com os alunos, nas aulas ou fora delas. Muitos não tiveram a possibilidade de, ao longo do seu próprio desenvolvimento, falar com alguém, pai, mãe, professor ou técnico, sobre estas questões. Tão pouco tiveram formação adequada e específica sobre como abordar a educação sexual em sala de aula. Isto deixa-os frequentemente numa posição de insegurança face à abordagem destas questões, mesmo que para tal tenham motivação .

É importante que o professor seja capaz de reconhecer que existem questões para as quais não está qualificado para dar resposta. Situações em que não tem o troco adequado para dar ao aluno que os procura. Isto não diminui o seu papel de educador mas, pelo contrário, valoriza-o enquanto intermediário entre os problemas dos alunos e os recursos que os poderão melhor ajudar.

De resto, a introdução da educação sexual nas escolas é uma realidade. De acordo com as linhas orientadoras para a introdução da educação sexual em meio escolar (Ministério da Educação et al., 2000), a sexualidade deverá ser abordada de forma transversal aos currículos escolares. Ou seja, não irá haver uma nova disciplina específica de educação sexual mas, em cada uma das disciplinas já existentes nos diferentes graus de ensino, deverão ser abordadas questões relacionadas com a sexualidade articuladas, obviamente, com os respectivos currículos.

Isto significa que, a curto prazo, a sexualidade será moeda de troca corrente entre professores e alunos no contexto da escola. Até porque se privilegiam, para os objectivos propostos, a utilização de metodologias dinâmicas e interactivas, e envolvem assuntos sobre os quais é suposto que se debatam valores e posições pessoais, dos alunos, bem como dos professores.

Os jovens de hoje em dia vão ter um privilégio que a grande maioria dos actuais adultos e jovens adultos não teve durante o seu crescimento e percurso escolar que é o de terem acesso a uma abordagem sistematizada da sexualidade no contexto da escola, permitindo-lhes, assim, a possibilidade da integração de informações e valores ao longo do seu desenvolvimento.

Este é um investimento que sendo feito hoje pode dar grandes lucros no futuro, ao diminuir o desconhecimento, as falsas crenças, o conselho benevolente mas tecnicamente incorrecto que, na verdade, só complica em vez de ajudar. Não irá, certamente, resolver todos os problemas do mundo ou, à nossa escala, do país, mas poderá, a seu tempo, diminuir alguns dos graves problemas de saúde que afectam os nossos jovens, dos quais o VIH e a gravidez não planeada são apenas exemplos. Moedas de troca, pedras preciosas, fundos de investimento e pesos de ouro, são valores que continuarão, certamente, a fazer parte do quotidiano dos jovens. Preciosos já todos eles são, cada um à sua maneira. Esperamos que, num futuro que começa agora, possam passar a ser mais valorizados ainda.

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Objectivo Mínimos da Ed.Sexual (por Ciclo)

1.º ciclo (1.º ao 4.º anos)

- Noção de corpo;

- O corpo em harmonia com a Natureza e o seu ambiente social e cultural;

- Noção de família;

- Diferenças entre rapazes e raparigas;

- Protecção do corpo e noção dos limites, dizendo não às
aproximações abusivas.


2.º ano
- Para além das rubricas incluídas nos programas de meio físico, o professor deve esclarecer os alunos sobre questões e dúvidas que surjam naturalmente, respondendo de forma simples e clara.


3.º e 4.º anos
- Para além das rubricas incluídas nos programas de meio físico, o professor poderá desenvolver temas que levem os alunos a compreender a necessidade de proteger o próprio corpo, de se defender de eventuais aproximações abusivas, aconselhando que, caso se deparem com dúvidas ou problemas de identidade de género, se sintam no direito de pedir ajuda às pessoas em quem confiam na família ou na escola.


2.º ciclo (5.º e 6.º anos)
- Puberdade — aspectos biológicos e emocionais;

- O corpo em transformação;

- Caracteres sexuais secundários;

- Normalidade, importância e frequência das suas variantes
biopsicológicas;

- Diversidade e respeito;

- Sexualidade e género;

- Reprodução humana e crescimento; contracepção e
planeamento familiar;

- Compreensão do ciclo menstrual e ovulatório;

- Prevenção dos maus tratos e das aproximações abusivas;

- Dimensão ética da sexualidade humana.


3.º ciclo (7.º ao 9.º anos)
- Dimensão ética da sexualidade humana:

- Compreensão da sexualidade como uma das componentes
mais sensíveis da pessoa, no contexto de um projecto de vida que integre valores (por exemplo: afectos,ternura, crescimento e maturidade emocional, capacidade de lidar com frustrações, compromissos, abstinência voluntária) e uma dimensão ética;

- Compreensão da fisiologia geral da reprodução humana;

- Compreensão do ciclo menstrual e ovulatório;

- Compreensão do uso e acessibilidade dos métodos contraceptivos e, sumariamente, dos seus mecanismos de acção e tolerância (efeitos secundários);

- Compreensão da epidemiologia das principais IST em Portugal e no mundo (incluindo infecção por VIH/vírus da imunodeficiência humana — HPV2/vírus do papiloma humano — e suas consequências) bem como os métodos de prevenção.

- Saber como se protege o seu próprio corpo, prevenindo a violência e o abuso físico e sexual e comportamentos sexuais de risco, dizendo não a pressões emocionais e sexuais;

- Conhecimento das taxas e tendências de maternidade e da paternidade na adolescência e compreensão do respectivo significado;

- Conhecimento das taxas e tendências das interrupções voluntárias de gravidez, suas sequelas e respectivo significado;

-Compreensão da noção de parentalidade no quadro de uma saúde sexual e reprodutiva saudável e responsável;

- Prevenção dos maus tratos e das aproximações abusivas.

Ensino secundário
- Compreensão ética da sexualidade humana.

- Sem prejuízo dos conteúdos já enunciados no 3.º ciclo,sempre que se entenda necessário, devem retomar -se temas previamente abordados, pois a experiência demonstra
vantagens de se voltar a abordá -los com alunos que, nesta
fase de estudos, poderão eventualmente já ter iniciado a vida sexual activa. A abordagem deve ser acompanhada por uma reflexão sobre atitudes e comportamentos dos
adolescentes na actualidade:

- Compreensão e determinação do ciclo menstrual em geral, com particular atenção à identificação, quando possível, do período ovulatório, em função das características dos ciclos menstruais.

- Informação estatística, por exemplo sobre:
-Idade de início das relações sexuais, em Portugal e na UE;
- Taxas de gravidez e aborto em Portugal;
- Métodos contraceptivos disponíveis e utilizados; segurança
proporcionada por diferentes métodos; motivos que
impedem o uso de métodos adequados;
- Consequências físicas, psicológicas e sociais da maternidade
e da paternidade de gravidez na adolescênciae do aborto;
- Doenças e infecções sexualmente transmissíveis (como
infecção por VIH e HPV) e suas consequências;
- Prevenção de doenças sexualmente transmissíveis;
- Prevenção dos maus tratos e das aproximações abusivas.

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