domingo, 25 de setembro de 2011

Educação Sexual no Ensino Secundário - uma experiência de interdisciplinaridade

No texto que a seguir se apresenta indicam-se, numa primeira parte, Introdução, as razões que motivaram a escolha do tema e, numa segunda parte, Metodologia, os passos percorridos para concretizar o programa de Educação Sexual. Segue-se uma breve análise dos Resultados e algumas Conclusões e sugestões para projectos nesta área.


Introdução

A necessidade de escolher um tema no âmbito da saúde pública para um trabalho de investigação, que servisse pela sua actualidade e pertinência, simultaneamente os objectivos curriculares da escola, tais as razões que levaram a autora a abordar este assunto.

A maneira a desenvolver neste artigo será, no corrente ano, alvo de uma dissertação de mestrado. Daí que o que aqui se pretenda apresentar, sinteticamente, sejam apenas as razões motivadoras e os procedimentos envolvidos numa experiência de interdisciplinaridade.

Esta experiência centrou-se, fundamentalmente, na aplicação de um programa informativo e formativo de Educação Sexual, cujas consequências se pretendia que fossem: a alteração dos conhecimentos e atitudes dos alunos sujeitos a esse programa, relativamente ao seu estado inicial; a promoção da sua saúde e bem-estar; a prevenção de doenças e melhoria das suas capacidades de comunicação e tomada de decisão.

Poder-se-á dizer que, em termos de justificação, a necessidade deste ou de outros programas de Educação Sexual, nos dias de hoje surge, como todos têm consciência, mais do que indispensável.

- Primeiro, porque, nas ultimas décadas, o comportamento e desenvolvimento físico e sexual dos adolescentes se modificou acentuadamente. Os jovens estão a atingir a puberdade muito mais cedo do que as gerações anteriores (1). Em consequência disso têm, também, os seus primeiros relacionamentos sexuais mais cedo, sabendo-se, através de um estudo efectuado (1), que entre os 15-19 anos 60% dos jovens são já sexualmente activos e 13% desse grupo, aos 14 anos e menos que isso, já tinham relacionamentos sexuais completos.

Em Portugal, os últimos estudos neste campo, levados a cabo por Nuno Nodim (2) e Pedro Vasconcelos (3), sugerem que 23% da população jovem se inicia sexualmente com menos de 16 anos, sendo de 80% o número dos que, entre os 18 e os 25 anos já tiveram relações sexuais.

- Segundo, porque, a socialização dos jovens é feita relativamente não a um único código moral, mas a um leque variado de valores, por vezes em contradição.

- Terceiro, porque se alterou a estabilidade familiar através da mobilidade da mesma e da facilidade do divórcio.

- Quarto, porque as novas formas de cultura de massas, como consequência do advento dos meios de comunicação social, apresentam uma sexualidade sobrevalorizada.

Ora, como é sabido, a conduta sexual dos jovens tem implicações consideráveis na sua saúde. As estatísticas sobre a gravidez na adolescência e sobre as doenças sexualmente transmitidas, demonstram-no claramente. Sabe-se, também, que na faixa etária dos adolescentes o uso de contraceptivos é, ainda, reduzido devido, principalmente, a falhas na informação e comunicação com os jovens. Daí que, baseado nestes pressupostos, se tenha orientado a pesquisa sobre o papel da informação, adquirida durante uma experiência de três meses, na mudança dos conhecimentos e atitudes prévios, de um grupo de alunos.

Para tal, fez-se uma revisão de literatura e constataram-se outras experiências semelhantes e seus resultados (1,4,5,6,7). Em trabalhos anteriores a estes reconheceu-se que os conhecimentos são não só cruciais para a adaptação psicológica necessária durante a adolescência mas também pré-requisitos para um comportamento seguro. É, igualmente importante, avaliar o que os jovens sabem sobre puberdade e sexualidade, para que se possa fazer a elaboração de programas de Educação Sexual nas escolas. Para assegurar que os programas atinjam os fins a que se propõem é necessário, também, avaliar os conhecimentos antes e depois de ensinar (1).

"Efectivamente, a Educação Sexual só pode ser levada a cabo se, a posteriori, houver urna avaliação dos resultados'' (Winn, 1998). Então, porque as investigações, sobre os conhecimentos de sexualidade que os jovens têm, revelaram que esses conhecimentos são escassos, incompletos e incorrectos e que isso afecta a sua saúde, o modo como interagem sexualmente e a sua capacidade de tomar decisões, pensou-se ser importante e necessário implementar um programa cujos objectivos fossem, além de outros, aumentar também os conhecimentos dos alunos em matérias de natureza sexual.

Nos assuntos revistos foi encontrado e evidenciado o papel dos Programas de Educação Sexual de 4.° Geração, programas que se baseiam em currículos intitulados de "Redução do Risco" (7). Tratam-se de programas interactivos, dinâmicos, centrados em objectivos compartimentais, que levam os alunos a desenvolver capacidades e destrezas, a desenvolver a assertividade, a par de uma informação, o mais completa possível.


METODOLOGIA

As actividades realizadas desenvolveram-se ao longo do ano lectivo de 1999/2000. As etapas mais representativas da planificação estão apresentadas no quadro síntese, que resume todo o trabalho desenvolvido durante esse período.

Este estudo experimental consistiu em submeter uma amostra da população escolhida (uma turma do 11.° ano, do agrupamento I) à influência da variável "frequência de um programa de Educação Sexual", que decorreu na Escola Secundária D. Dinis ao longo do 1.° período lectivo de 1999/2000, em 27 sessões (27 horas aproximadamente), em condições controladas e conhecidas, e avaliar as modificações nos conhecimentos e intenções/atitudes sobre sexualidade, desse grupo.

A temática da Educação Sexual foi abordada nas disciplinas do ano em questão, mais precisamente naquelas em cujos conteúdos e objectivos se podiam sobrepor, tal como é preconizado, quer na actual legislação (Decreto-lei n.° 259/2000 de 17 de Outubro) quer no manual Orientaçãoes Tecnicas Sobre Educação Sexual Em Meio Escolar (8).



Etapas do trabalho
Datas

Elaboração do projecto de um programa de Educação Sexual, submetido à
armação do Conselho Pedagógico da Escola Secundária D. Dinis.
Julho de 1999

Elaboração questionários de conhecimentos e altitudes sobre sexualidade.
Julho e Agosto de 1999


Aplicação dos questionários de conhecimentos e altitudes.
Setembro de 1999


Avaliação dos questionários reformulação do programa de Educação Sexual,
tendo um vista os resultados obtidos nos questionários.
Outubro de 1999


Preparação das sessões de Educação Sexual.
Outubro a Dezembro de 1999
1999


Implementação do programa de Educação Sexual.
1.° Período do ano lectivo
1999/2000


Nova aplicação dos questionários aos alunos, para avaliar mudanças.
Janeiro de 2000





Fonte: A tese de mestrado "O papel dos conhecimentos e atitudes em Sexualidade como pré-requisitos para comportamentos saudáveis".


A autora deste estudo adaptou um programa original, incluído na bibliografia citada (4), a sua realidade curricular específica, constatada, quer através dos resultados obtidos pela aplicação dos questionários, quer através dos conteúdos das disciplinas do 11.° ano de escolaridade. Nesse sentido foi elaborado o Quadro II, onde se evidencia a forma transversal e integrada como a Educação Sexual foi implementada, nos currículos que melhor a podiam tratar. Para a elaboração deste quadro a autora baseou-se num projecto/programa de Educação Sexual para o ano lectivo 1999/2000, apresentado e aprovado em Conselho Pedagógico da Escola Secundaria D. Dinis.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Postagens populares

Objectivo Mínimos da Ed.Sexual (por Ciclo)

1.º ciclo (1.º ao 4.º anos)

- Noção de corpo;

- O corpo em harmonia com a Natureza e o seu ambiente social e cultural;

- Noção de família;

- Diferenças entre rapazes e raparigas;

- Protecção do corpo e noção dos limites, dizendo não às
aproximações abusivas.


2.º ano
- Para além das rubricas incluídas nos programas de meio físico, o professor deve esclarecer os alunos sobre questões e dúvidas que surjam naturalmente, respondendo de forma simples e clara.


3.º e 4.º anos
- Para além das rubricas incluídas nos programas de meio físico, o professor poderá desenvolver temas que levem os alunos a compreender a necessidade de proteger o próprio corpo, de se defender de eventuais aproximações abusivas, aconselhando que, caso se deparem com dúvidas ou problemas de identidade de género, se sintam no direito de pedir ajuda às pessoas em quem confiam na família ou na escola.


2.º ciclo (5.º e 6.º anos)
- Puberdade — aspectos biológicos e emocionais;

- O corpo em transformação;

- Caracteres sexuais secundários;

- Normalidade, importância e frequência das suas variantes
biopsicológicas;

- Diversidade e respeito;

- Sexualidade e género;

- Reprodução humana e crescimento; contracepção e
planeamento familiar;

- Compreensão do ciclo menstrual e ovulatório;

- Prevenção dos maus tratos e das aproximações abusivas;

- Dimensão ética da sexualidade humana.


3.º ciclo (7.º ao 9.º anos)
- Dimensão ética da sexualidade humana:

- Compreensão da sexualidade como uma das componentes
mais sensíveis da pessoa, no contexto de um projecto de vida que integre valores (por exemplo: afectos,ternura, crescimento e maturidade emocional, capacidade de lidar com frustrações, compromissos, abstinência voluntária) e uma dimensão ética;

- Compreensão da fisiologia geral da reprodução humana;

- Compreensão do ciclo menstrual e ovulatório;

- Compreensão do uso e acessibilidade dos métodos contraceptivos e, sumariamente, dos seus mecanismos de acção e tolerância (efeitos secundários);

- Compreensão da epidemiologia das principais IST em Portugal e no mundo (incluindo infecção por VIH/vírus da imunodeficiência humana — HPV2/vírus do papiloma humano — e suas consequências) bem como os métodos de prevenção.

- Saber como se protege o seu próprio corpo, prevenindo a violência e o abuso físico e sexual e comportamentos sexuais de risco, dizendo não a pressões emocionais e sexuais;

- Conhecimento das taxas e tendências de maternidade e da paternidade na adolescência e compreensão do respectivo significado;

- Conhecimento das taxas e tendências das interrupções voluntárias de gravidez, suas sequelas e respectivo significado;

-Compreensão da noção de parentalidade no quadro de uma saúde sexual e reprodutiva saudável e responsável;

- Prevenção dos maus tratos e das aproximações abusivas.

Ensino secundário
- Compreensão ética da sexualidade humana.

- Sem prejuízo dos conteúdos já enunciados no 3.º ciclo,sempre que se entenda necessário, devem retomar -se temas previamente abordados, pois a experiência demonstra
vantagens de se voltar a abordá -los com alunos que, nesta
fase de estudos, poderão eventualmente já ter iniciado a vida sexual activa. A abordagem deve ser acompanhada por uma reflexão sobre atitudes e comportamentos dos
adolescentes na actualidade:

- Compreensão e determinação do ciclo menstrual em geral, com particular atenção à identificação, quando possível, do período ovulatório, em função das características dos ciclos menstruais.

- Informação estatística, por exemplo sobre:
-Idade de início das relações sexuais, em Portugal e na UE;
- Taxas de gravidez e aborto em Portugal;
- Métodos contraceptivos disponíveis e utilizados; segurança
proporcionada por diferentes métodos; motivos que
impedem o uso de métodos adequados;
- Consequências físicas, psicológicas e sociais da maternidade
e da paternidade de gravidez na adolescênciae do aborto;
- Doenças e infecções sexualmente transmissíveis (como
infecção por VIH e HPV) e suas consequências;
- Prevenção de doenças sexualmente transmissíveis;
- Prevenção dos maus tratos e das aproximações abusivas.

Recomendamos ...

Arquivo do blog