terça-feira, 29 de novembro de 2011

A História da Educação Sexual

O conceito de educação sexual surge em primeira instância associado a questões de saúde pública. No Concílio Vaticano II, na década de 60, debate-se o confronto entre a moral tradicional e os novos problemas dos jovens e, por acréscimo, a sexualidade. O tema da sexualidade encontra-se nesse âmbito associado a outros, tais como o da Família, do Matrimónio e do Amor.
É no âmbito da “Reforma Veiga Simão” que é criada “A Comissão para o Estudo da Educação e Sexualidade” incentivando a discussão pública sobre as questões da educação sexual. Apesar de atacada pelos sectores mais conservadores do regime, acabaram por ser formuladas recomendações sobre a abordagem da sexualidade nos manuais escolares e indicadas as vantagens da educação mista, propondo-se a junção de rapazes e raparigas nos mesmos espaços escolares, ao contrário do que acontecia até então.
Esses passos, dados num contexto de forte oposição conservadora, só tiveram seguimento em 1984, quer em termos legislativos quer ao nível dos instrumentos de política educativa. Com a Revolução de Abril a sociedade muda rapidamente, liberta-se e politiza-se. Estes são anos de mudança nos costumes e atitudes da população portuguesa em questões sexuais. As políticas estatais enquadram o Planeamento Familiar e a Saúde Materno-Infantil.


Em 1976 os serviços de saúde aplicam uma política de desenvolvimento do planeamento familiar numa perspectiva de prevenção da gravidez não desejada e de recurso ao aborto. Paralelamente promovem-se melhores condições de saúde materno–infantil. Estas políticas são então consagradas na Constituição.
Também o Código da Família sofre algumas alterações, visando uma maior igualdade entre os sexos e desencadeiam-se os movimentos sociais de promoção da educação não sexista, liderados pela Comissão da Condição Feminina. As organizações femininas lutam pelo direito à contracepção e pela legalização do aborto. Embora a pílula contraceptiva tivesse chegado ao mercado português no ano de 1962, na realidade o acesso à contracepção era quase exclusivamente reservado a casais adultos ou a algumas franjas de jovens universitários.
Paralelamente ocorrem mudanças nas políticas de saúde, nomeadamente a criação do Sistema Nacional de Saúde. A lógica de prestação de cuidados primários de saúde sofre alterações que carecem de uma regulamentação legal. Este vazio legislativo veio dar origem à Lei 3/84 de 24 de Março – Direito ao planeamento familiar e à educação sexual. Essa lei, a nível da educação sexual:

Define o direito à educação sexual como direito fundamental;
Define o dever do Estado em cooperar com os pais no sentido de garantir a educação sexual dos jovens e os meios para tal;
Obriga a inclusão de conteúdos de educação sexual nos currículos escolares e prevê a formação dos docentes e dos pais para esse fim.
Todavia, enquanto que o direito ao planeamento familiar foi regulamentado pela Portaria nº 52/85, o direito a educação sexual não foi alvo de regulamentação.
A educação sexual terá de esperar mais duas décadas para ser regulamentada. Posteriormente à aprovação desta lei generaliza-se o acesso à contracepção, mas perde-se a vertente formativa da sexualidade. Até ao final dos anos 80, a reprodução humana não havia ainda sido introduzida nos curricula do ensino básico, não sendo clara a sua inserção quer nos programas de Meio Físico e Social, quer nos das Ciências da Natureza.


A partir de 1985 registam-se alguns avanços significativos dentro do sistema educativo, alguns deles preconizados pela reforma educativa da equipa de Roberto Carneiro (1988-91). Em 1986 foi aprovada a Lei de Bases do Sistema Educativo que estabelecia no n.º 2 do art.º 47 a área de Formação Pessoal e Social. Esta nova área incluiu temas como a educação ecológica, educação do consumidor, educação familiar, educação sexual, prevenção de acidentes e educação para a saúde.
No âmbito dessa nova área escolar surgiu por Decreto Lei n.º 286/89 a Disciplina de Desenvolvimento Pessoal e Social (DPS) que, devido à pressão de certos grupos, nomeadamente da Igreja Católica, será de frequência alternativa à Disciplina de Educação Moral e Religião Católica e de outras confissões. A DPS será leccionada desde o 1º ano do 1º Ciclo do Ensino Básico até ao 12º ano do Ensino Secundário. A nova disciplina terá como carga horária uma hora semanal, ficando a criação dos conteúdos programáticos para os vários tipos de ensino a cargo do Instituto de Inovação Educacional. Aponta-se, pela primeira vez, para uma educação sexual ligada ao desenvolvimento pessoal e social dos jovens e não limitada apenas aos seus aspectos biológicos.

Sem objectivos próprios, instrumentalizada, visando objectivos como a luta contra a gravidez não desejada, a implementação do planeamento familiar, a prevenção do aborto ou a prevenção do VIH, a educação sexual não adquire ainda um estatuto isento e uma finalidade própria.

Nos finais dos anos 80, no âmbito da reforma educativa, a APF apresentou um documento ao Ministério da Educação intitulado “Sugestões para a Integração da Educação Sexual nos Ensinos Básico e Secundário”. Esta proposta de educação sexual é composta por um conjunto diversificado de temas agrupados para o 1º, 2º e 3º Ciclos.
Paralelamente é também apresentada uma proposta de programa de educação para a saúde, oriunda de uma equipa do Ministério da Educação onde se encontra igualmente apontada a importância da sexualidade e das relações interpessoais.

No entanto, a nível prático, nada mudou. Os conteúdos limitam-se à abordagem da reprodução humana, à contracepção e à prevenção do VIH, enquadrados nos programas de Ciências da Natureza (6º ano) e Biologia (8º ano). Não foram contemplados os objectivos educacionais de informação correcta e desenvolvimento de valores e atitudes positivas em relação à sexualidade.

A disciplina de Desenvolvimento Pessoal e Social não vai além do seu período experimental uma vez que não existem, por parte do governo, procedimentos que generalizem a nova experiência. E, consequentemente, a maior parte das escolas não integra a DPS.

Entre 1995 e 1998, como resposta a um progressivo apagamento dos conteúdos de educação sexual na recentemente criada disciplina de DPS, a APF propõe e vê aprovado um projecto-piloto de introdução da Educação Sexual em cinco escolas. Este projecto mostrou como os professores poderiam conduzir programas de Educação Sexual, desde que devidamente formados e apoiados, mostrando ainda o apoio dos pais e de outras instituições ligada à vida activa das escolas.
A Constituição da República Portuguesa (4ª Revisão Constitucional, publicada na Lei Constitucional 1/97, de 20 de Setembro de 1997) aponta no art.º 67 para as incumbências do estado na protecção da família. Destacam-se as intervenções previstas no âmbito da Saúde e Educação Sexual e Reprodutiva, apontando para a cooperação com os pais na educação das crianças e jovens, garantindo valores de liberdade individual e direito ao planeamento da família, informação e acesso a métodos que permitam o exercício de uma maternidade e paternidade conscientes.

Em 1998 o Conselho de Ministros apresenta a Resolução n.º 124/98. Foi aprovado o Relatório Interministerial para a Elaboração de um Plano de Acção em Educação Sexual e Planeamento Familiar, que concretizou algumas medidas com vista ao cumprimento da Lei 3/84. Nesse relatório a educação sexual passou a ser entendida como uma componente essencial da educação e da promoção da saúde, sendo por isso assumida a necessidade de a concretizar, através da aplicação da lei e da articulação das intervenções do Estado em diversos domínios. Os alvos da intervenção são ainda os jovens e os objectivos passam por proporcionar condições para a aquisição de conhecimento em educação sexual, estimulando o desenvolvimento de referências éticas e de atitudes informadas. Visa uma compreensão e vivência da sexualidade com base no respeito por si próprio e pelos outros. Temas como a gravidez planeada, a saúde materna e a prestação de cuidados de saúde são ainda abordados com especial relevância.

Em 1999, através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 7/99 foi aprovado o Plano para uma Política Global de Família, incentivando a participação das famílias na vida escolar e promovendo uma maior equidade no acesso aos cuidados de saúde sexual e reprodutiva. Com a Lei n.º 120/99 reforçam-se as garantias no direito à saúde reprodutiva, preconizando que nos estabelecimentos de ensino básico e secundário sejam implementados programas para a promoção da saúde e para a abordagem da sexualidade humana. Essa lei propõe que se forneça uma adequada informação sobre a sexualidade humana, aparelho reprodutivo e fisiologia da reprodução, sobre SIDA e outras doenças sexualmente transmissíveis, contemplando ainda métodos contraceptivos e o planeamento da família, as relações interpessoais, a partilha de responsabilidades e a igualdade entre géneros (artigo 2º Lei n.º 120/99). O quadro legal e normativo legitima a educação sexual como componente da educação, aponta que os seus conteúdos não se restringem ao plano biológico e médico, define algumas vias para a sua inclusão curricular e extracurricular e apela à rentabilização dos recursos disponibilizados para a sua promoção, reforçando a importância de parcerias e da cooperação entre ministérios no cumprimento de responsabilidades e deveres assumidos pelo Estado neste domínio.

Paralelamente a este corpo legislativo no âmbito da educação sexual, surgem decisões de política educativa no seio do Ministério da Educação que pretendem contribuir para a implementação da educação sexual. Referimo-nos à criação do Programa de Promoção e Educação para a Saúde, mais tarde dando origem à Comissão de Coordenação da Promoção e Educação para a Saúde. É ainda desenvolvida a Rede Nacional de Escolas Promotoras de Saúde, em que a educação sexual poderá ser uma área de trabalho. Relativamente às áreas curriculares (Formação Cívica e Área Projecto) a educação sexual é indicada como uma possível temática a ser abordada, sendo ainda incluída nas orientações do Ministério da Educação para a Educação Pré-Escolar e para os ensinos básicos e secundário.
Durante a década de 80 e 90 a educação sexual não é um facto raro nas escolas portuguesas mas ainda não chega a todas as crianças e jovens portugueses. Muitos professores e escolas desconhecem a legislação existente e a ausência de dados científicos nessa área torna a sistematização do conhecimento difícil, assim dificultando a implementação de uma educação sexual generalizada.


No sentido de criar um fio condutor à intervenção e facilitar o trabalho das escolas e dos professores em particular, o Ministério da Educação e o Ministério da Saúde publicam as Linhas Orientadoras em Educação Sexual em 2000. Todavia o modelo proposto para a implementação da educação sexual em meio escolar expresso no Decreto-lei n.º 259/2000 de 17 Outubro de 2000, o modelo transversal embora ideologicamente apropriado é de difícil pragmatização, o que conduz a uma diluição de responsabilidades em educação sexual.


Ainda no ano início da década de 2000 o Ministério da Educação estabelece protocolos de intervenção em educação sexual em meio escolar com diversas associações da sociedade civil com trabalho realizado nesta área (APF, MDV e FPCCS). Estes são anos de avaliação de práticas desenvolvidas ao longo de mais de duas décadas. É inclusive requerido à Comissão de Coordenação da Promoção e Educação para a Saúde um estudo sobre a implementação da educação sexual nas escolas Portuguesas.


Em 2005 o Ministério da Educação determina a criação de um grupo de trabalho incumbido de proceder ao estudo e de propor os parâmetros gerais dos programas de educação sexual em meio escolar, na perspectiva da promoção da saúde escolar e através do Despacho nº 19 737/2005 (2ª série) é criado o Grupo de Trabalho em Educação Sexual. Em 31 de Outubro de 2005, o referido grupo apresenta um Relatório Preliminar, que esteve em discussão pública até 16 de Novembro de 2005. Simultaneamente é solicitado também ao Conselho Nacional de Educação um parecer sobre a matéria: "O modelo de Educação Sexual nas Escolas, em vigor nas escolas desde o ano de 2000”.


Através do Despacho n.º 25 995/2005, de 16 de Dezembro o Ministério da Educação aprova e reafirma os princípios orientadores das conclusões dos relatórios no que se refere ao modelo de educação para a promoção da saúde. A 7 Fevereiro de 2006 é celebrado o Protocolo entre o Ministério da Educação e o Ministério da Saúde tendo em vista o desenvolvimento de actividades de promoção da educação para a saúde em meio escolar. Este documento traduz as opções tomadas pelo Ministério da Educação no sentido da clarificação das políticas educativas de educação sexual e as opções tomadas pelo Ministério da Saúde no sentido da dinamização da promoção da saúde na escola.


No seguimento destas iniciativas é aberto pela Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular um concurso destinado às escolas para programas e projectos sobre educação para a saúde. Seguem-se dois despachos do Ministério da Educação que pretendem balizar o enquadramento da educação sexual em meio escolar: o Despacho n.º 2506/2007, de 20 de Fevereiro, que define algumas linhas de orientação para o professor coordenador da área temática da saúde e o Despacho n.º 19308/2008, de 21 de Julho, que no nº 9 e nº10, alínea a) determina que ao longo do ensino básico, em área de projecto e em formação cívica, sejam desenvolvidas competências no domínio da educação para a saúde e sexualidade, entre outras.


Finalmente em 2009 o Ministério da Educação Estabelece o regime de aplicação da educação sexual em meio escolar através da Lei n.º 60/2009, de 6 de Agosto regulamentada através da Portaria nº 196-A/2010, de 9 de Abril.

domingo, 27 de novembro de 2011

Abreviaturas relacionadas com a Educação Sexual

APF - Associação para o Planeamento da Família
CCPES - Comissão de Coordenação da Promoção e Educação para a Saúde
CM - Conselho de Ministros
CNS - Conselho Nacional de Educação
CRP - Constituição da República Portuguesa
CS -  Centros de Saúde
DGIDC - Direcção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular
DL - Decreto-Lei
DPS - Desenvolvimento Pessoal e Social
ES - Educação Sexual
FPCCS - Fundação Portuguesa a Comunidade Contra a Sida
FPS - Formação Pessoal e Social
GTES - Grupo de Trabalho de Educação Sexual
IVG - Interrupção Voluntária da Gravidez
LBSE - Lei de Bases do Sistema Educativo
MDV - Movimento de Defesa da Vida
ME - Ministério da Educação
MS - Ministério da Saúde
PEPT - Programa Educação para Todos
PF - Planeamento Familiar
PPES - Programa de Promoção e Educação para a Saúde
RNEPS - Rede Nacional de Escolas Promotoras da Saúde
SR - Saúde Reprodutiva
SSR - Saúde Sexual e Reprodutiva

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Legislação

TRANSVERSAIS - Saúde e Educação


1984 Lei nº 3 / 84 – Direito ao PF e à ES
1997 Constituição da República Portuguesa (4ª Revisão Constitucional) nº1/97, artº67 - Estado assume a responsabilidade relativamente à SSR e à ES.
1998 Resolução do CM nº124/98 - Plano de acção em ES e PF, que visa cumprir os objectivos da lei 3/84
1999 Resolução do CM nº7/99 - Plano para uma Política Global de Família
1999 Lei 120/99 – Reforça as garantias do direito à SR
2000 DL nº 259/2000 - Regulamentação da Lei 120/99
2010 Portaria nº 196-A/2010 - Regulamentação da Lei nº 60/2009



SAÚDE

1979 Criação do Sistema Nacional de Saúde
1985 Portaria 52/85 – Regulamentação da Lei nº3/84 relativa ao PF. Parcerias entre CS e Escolas para projectos pioneiros
1990 Lei de Bases da Saúde. A protecção e a promoção da saúde como responsabilidade do Estado e da Sociedade Civil





EDUCAÇÃO

1986 LBSE, Artº47, nº2 - ES inserida na área de FPS
1989 DL n.º 286/89 – ES enquadrada na disciplina de DPS
2009 Lei n.º 60/2009 - Regime de aplicação da ES em meio escolar

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Cronograma da Educação Sexual em Portugal e no Mundo

Sexualidade, Saúde e Educação
NO MUNDO


1948 Publicação do primeiro grande estudo sobre a sexualidade da população por Alfred Kinsey

1952 Operação de mudança de sexo de Christine Jorgensen, a primeira a utilizar tratamento hormonal em associação com a intervenção cirúrgica, na Dinamarca

1960 Concílio Vaticano II: Abordada a questão dos jovens e os seus “problemas”
1960 Lançamento da pílula contraceptiva
1965 Legalização do planeamento familiar nos EUA
1966 Publicação do livro “Human sexual response” de William Masters e Virgínia Johnson
1969 Revolta de Stonewall Inn, em Nova Iorque, marcando o início do moderno movimento de luta pelos direitos de minorias sexuais

1973 Homossexualidade retirada da lista de doenças mentais (DSM)
1973 Legalização do aborto nos EUA

1983 Aparecimento e identificação do VIH

1996 Comercialização de medicamentos altamente eficazes para tratar a infecção pelo VIH
1998 Comercialização do Viagra






Sexualidade, Saúde e Educação
PORTUGAL

1913 Publicação de “A vida sexual” de Egas Moniz
1926-1974 Antigo regime (tradição e conservadorismo; forte influência da Igreja Católica; moral repressiva da sexualidade)
1967 Escândalo Ballets Rose, ligando personalidades do estado à prostituição infantil
1967 Fundação da APF
1971 “A Comissão para o Estudo da Educação e Sexualidade” Reforma Veiga Simão
1982 Homossexualidade deixa de ser considerada como crime
1993 Criação PPES e PEPT
1993 Criação RNEPS
1995-1998 Projectos Experimentais de ES meio escolar (APF - PPES outras ONGs)
1998 Primeiro referendo sobre despenalização da IVG
1999 Comercialização da pílula do dia seguinte
1999 Abertura da Sexualidade em Linha 808 22 2003, linha de informação sobre sexualidade para jovens (APF-IPJ)
2000 “Educação sexual em meio escolar – Linhas orientadoras” (ME – MS - APF e RNEPS)
2000 Protocolo entre o ME e a APF
2000 Estudo sobre a implementação da educação sexual pelo CCPES
2001 Nova lei das uniões de facto, alargada a casais do mesmo sexo
2002 Revelação da existência de situações de abuso sexual no âmbito da Casa Pia de Lisboa
2003 Protocolos entre o ME e ONGs: APF, MDV e FPCCS, para intervenção nas escolas no âmbito da ES
2003 Extinção de CCPES, RNEPS
2005 Extinção dos Protocolos entre o ME e ONGs
2005 Despacho nº 19 737/2005 (2ª série) ME – Criado GTES
2005 Relatório Preliminar GTES
2005 Despacho n.º 25 995/2005 – Reafirma modelo de educação para a saúde (GTES)
2005 Parecer do CNE - "O modelo de Educação Sexual nas Escolas, em vigor nas escolas desde o ano de 2000”
2006 Protocolo entre ME e o MS: Promoção da educação para a saúde em meio escolar
2006 a …. DGIDC - Concurso para Programas/Projectos sobre "Educação para a Saúde”
2007 Legalização da IVG
2010 Legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, sem direitos de adopção

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Regras para implementação da Educação Sexual ...

As actividades propostas nesta agenda podem levantar algumas questões sensíveis e por vezes difíceis de gerir em sala de aula[1] . O professor deverá estar atento a tais situações, trabalhar em grupo as questões que surgirem, aproveitando para reforçar a importância da privacidade e do respeito pelo outro (questões pessoais de alunos e o apelo ao relato das experiências dos professores), e, se necessário, remeter para espaços mais adequados (por ex. o gabinete de informação e apoio ao aluno – artigo 10º Portaria nº196-A/2010 de 9 de Abril). Propomos, no entanto, que a definição de regras para as actividades se constitua, per se, enquanto actividade prioritária. De resto, é útil que os alunos tenham parte activa na construção das regras a manter durante as actividades, ainda que assistidos pelo professor, por oposição a uma comunicação/imposição das mesmas.
Aqui ficam algumas sugestões para aspectos a ter em consideração antes de começar a desenvolver as actividades:

Regras para a turma e para o professor
Não é permitido pressionar.
Não se devem fazer perguntas pessoais.
Todas as opiniões ou valores são importantes.
Ninguém é mais nem menos importante na sala de aula e todas as ideias devem ser debatidas.
Sempre que possível substituir palavras de calão por palavras científicas.
Quando não se sabe: perguntar e pesquisar.


Características importantes para o professor
Ser capaz de implementar um clima de confiança e de respeito pela intimidade.
Respeitar a confidencialidade sobre tudo o que for abordado, excepto em situações de potencial risco ou compromisso do bem-estar físico ou psicológico dos alunos.
Não se escandalizar, embaraçar ou ofender com facilidade.
Procurar parcerias que ajudem a desenvolver temas a abordar nas aulas, sempre que necessário.
Integrar pais e família nas actividades propostas.


Relativamente aos recursos disponíveis sugerimos que consulte nesta mesmo site, o capítulo relativo a contactos, leituras e sítios recomendados. Relembramos ainda que é fundamental contactar e envolver o agrupamento do Centro de Saúde local, entidade responsável pela implementação Programa Nacional de Saúde Escolar, no qual se enquadra a educação sexual escolar.



[1] Situações de descriminação (por exemplo a homofobia), suspeita de maus tratos, abuso, comportamentos de risco a nível da sexualidade, gravidez na adolescência, entre outros.

sábado, 19 de novembro de 2011

Como implementar a Educação Sexual?

A Lei nº60/2009 de 6 de Agosto e respectiva Portaria nº196-A/2010 de 9 de Abril incluem propostas sobre os procedimentos e responsabilidades na elaboração de um projecto de educação sexual para a escola:

A elaboração do projecto educativo da escola (comunidade escolar: professores, pais, estudantes) no âmbito da educação para a saúde, na qual deverá estar contida a área da educação sexual.
O papel do Director de Turma e do Professor Coordenador de Educação para a Saúde é fundamental no sentido de aferir a carga horária dedicada à educação sexual mediante as características da turma e do respectivo nível de ensino, não podendo ser inferior a seis horas para o 2.º ciclo e doze horas para o 3.º ciclo.
Os conteúdos de educação sexual poderão ser leccionados nos tempos lectivos de disciplinas e de iniciativas extracurriculares que se relacionem com a respectiva área; pretende-se que tais conteúdos vão ao encontro da perspectiva da transversalidade do tema. A área de formação cívica poderá servir de espaço de estruturação das actividades adaptadas às necessidades específicas de cada turma.
A Lei estabelece ainda a necessidade formativa e de acompanhamento das actividades e a criação de um gabinete de informação e apoio ao aluno em matéria de saúde, incluindo a saúde sexual e reprodutiva.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

SIDA

SIDA
Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA), é uma doença provocada por um vírus, chamado VÍRUS da IMUNODEFICIÊNCIA HUMANA (VIH). Este vírus ataca o sistema imunitário, isto é, o "arsenal de combate" de que o organismo se serve para defender das infecções. Quando o sistema imunitário é atingido perde-se essa capacidade de defesa e aparecem muitas infecções graves ou tumores, muitas vezes mortais. Estas infecções chamam-se oportunistas porque aproveitam o enfraquecimento das defesas do organismo. Decerto, já ouvi dizer que alguém morreu de SIDA. Isto não é inteiramente correcto. O que de facto causa a morte são as infecções oportunistas ou tumores; a SIDA facilita o seu aparecimento.


O que é o vírus VIH?
Os médicos afirmam que a SIDA é causada por um vírus (Vírus da Imunodeficiência Humana - VIH). O VIH é um vírus frágil que não sobrevive fora do organismo, a não ser em condições excepcionais. Mas após entrar no organismo, pode aí permanecer "silencioso" ou "escondido" durante meses ou até anos e, com maior ou menor velocidade, fazer grandes estragos no sistema imunitário.

Por isso, é frequente que pessoas que parecem estar de boa saúde possam, sem o saber, transmitir o vírus a outras. Os médicos ainda não têm certezas sobre a percentagem de pessoas contaminadas com o vírus virão a desenvolver a doença a que chamamos SIDA. Também ainda não se sabe quanto tempo pode passar desde o momento da contaminação até ao aparecimento visível da doença.

Contudo, parece não haver dúvidas de que com o tratamento médico adequado, menos pessoas contaminadas virão a desenvolver SIDA. Actualmente, julga-se que muitas pessoas contaminadas pelo VIH podem viver com a doença durante muitos anos. Cada vez mais a doença provocada pelo VIH é uma doença crónica, que pode ser controlada, tal como a diabetes ou a hipertensão arterial.

O VIH transmite-se através de alguns líquidos orgânicos: o sangue, o esperma, as secreções vaginais, o leite materno. Não há qualquer prova de que o vírus seja transmitido pela saliva, lágrimas, suor. O VIH entra no organismo através das membranas mucosas (as paredes do recto, as paredes da vagina ou interior da boca ou da garganta, por exemplo) ou por contacto directo com o sangue. O vírus não atravessa a pele intacta; só o faz se houver uma ferida ou corte que facilite a sua entrada (através do contacto com fluídos de uma pessoa infectada).

O vírus não se transmite pelo ar, através dos espirros ou da tosse. Por isso, não há perigo nenhum no contacto social quotidiano com pessoas infectadas pelo VIH. "Seropositivo" para o VIH não é a mesma coisa que SIDA, as pessoas com VIH não têm, automaticamente, SIDA.


VIH e sistema imunitário humano
O sistema imunitário humano tem como função reconhecer agentes agressores e defender o organismo da sua acção. Os órgãos e células que o constituem asseguram essa protecção.
Entre as células do sistema imunitário, destacam-se os glóbulos brancos (também designados linfócitos), que podem ser de tipos T e de tipo B.

Os linfócitos B fabricam substâncias – anticorpos - para combater os elementos invasores. Existe mais de um género de linfócitos T; vamos referir os T4 (também conhecidos como células CD4), o elemento vigilante que alerta o sistema imunitário para a necessidade de lutar contra um "invasor"; e os T8, aqueles que destroem as células que estiverem infectadas pelo "invasor".
Fazem também parte do sistema imunitário os macrófagos, as células que digerem as células mortas e os "invasores".

Os glóbulos brancos são produzidos na medula óssea, um dos órgãos primários do sistema imunitário, juntamente com o timo (que, como sabes, é uma glândula localizada na base do pescoço, atrás do esterno). Os órgãos secundários são o baço, as amígdalas e os adenóides e o sistema linfático.

A entrada do VIH no corpo e a sua multiplicação acelerada provocam uma diminuição do número de linfócitos do tipo CD4, que são, precisamente, os que dão ordens aos outros elementos do sistema imunitário para agir. Com o sistema imunitário enfraquecido, o seropositivo fica mais vulnerável aos microorganismos causadores de infecções oportunistas, que, geralmente, não conseguem atingir pessoas com um sistema de defesa "normal" (que não está a ser atacado).


Os sintomas
Não existe um sintoma ou um conjunto de sintomas que possa levar qualquer profissional de saúde a fazer um diagnóstico eficaz e imediato da SIDA em quem quer que seja. Os sintomas que surgem associados à SIDA são os sintomas das infecções oportunistas cuja penetração no corpo o vírus VHI facilita, ao destruir progressivamente o sistema imunitário. E uma vez que os sintomas se podem reforçar mutuamente, mascarar ou misturar, o leque de sintomas pode ser vastíssimo, embora existam alguns mais comuns (porque são também mais comuns as infecções oportunistas que os provocam).

Assim, algumas pessoas contaminadas apresentam sintomas semelhantes aos de uma gripe como febre, suores, dores de cabeça, de estômago, nos músculos e nas articulações, fadiga, dificuldades em engolir, glândulas linfáticas inchadas e uma leve comichão. Segundo algumas fontes ligadas à indústria farmacêutica, calcula-se que cerca de 50 por cento dos infectados apresentem estes sintomas.

Algumas pessoas também perdem peso e outras, ocasionalmente, podem perder a mobilidade dos braços e pernas, mas recuperam-na passado pouco tempo. A fase aguda da infecção com VIH dura entre uma a três semanas. Todos recuperam desta fase, em resposta da reacção do sistema imunitário, os sintomas desaparecem e observa-se uma redução do número de vírus presentes no organismo.

Os seropositivos vivem um período em que não apresentam sintomas, embora o vírus esteja a multiplicar-se no seu organismo o que pode prolongar-se por diversos anos. É neste período que se encontram, actualmente, 70 a 80 por cento dos infectados em todo o mundo.


Prevenção
Sucintamente, eis algumas medidas que previnem a transmissão da SIDA: usar sempre preservativo nas relações sexuais, não partilhar seringas e outros objectos cortantes (agulhas de acupunctura, instrumentos para fazer tatuagens e piercings, de cabeleireiro, manicura).

Além dos preservativos comuns, vendidos em farmácias e supermercados, existem outros, menos vulgares, que podem ser utilizados como protecção durante as mais diversas práticas sexuais (nomeadamente sexo oral). É também preciso dar atenção à utilização de objectos; se estes estiveram em contacto com sémen, fluidos vaginais e sangue infectados, podem transmitir o vírus.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sexualidade Infantil - do nascimento ao 2.º ano de vida

O período que decorre entre o nascimento e a aquisição da linguagem é um período marcado por um extraordinário desenvolvimento mental. De acordo com Piaget (1978), esta fase nem sempre é devidamente reconhecida por não ser acompanhada pelo desenvolvimento da linguagem, o que não nos permite seguir o progresso da inteligência e dos sentimentos, como acontecerá mais tarde? (Piaget, 1978:18).

Este período mostra-se decisivo para todo o desenvolvimento posterior, pois, em dois anos, a criança ganha um conjunto de novas e importantes competências, como seja o aparecimento da marcha, o início da linguagem e do controlo dos esfíncteres. Todas elas tornam a criança mais independente e com maior capacidade de explorar o meio.

Se a primeira fonte de prazer corporal se encontra na região oral e a amamentação é, sem dúvida, uma fonte de prazer expressivo para o recém-nascido, com o desenvolvimento e maturação do sistema nervoso central, e com a gradual aquisição da coordenação motora, a criança lança-se à descoberta do seu corpo e dos prazeres que este lhe proporciona (Piaget, 1978; Felix, 1995; Lopez & Fuertes, 1999; Strecht, 2001).

É um facto da observação quotidiana que os bebés e as crianças mexem e interessam-se pelos seus órgãos genitais. Esta ?masturbação? (entende-se esta masturbação infantil como a manipulação dos órgãos genitais, observável nos rapazes a partir dos 6/7 meses e nas raparigas a partir dos 10/11 meses; no entanto, e de realçar que autores como Bakwin (1973) e Kinsey (1953) apontam para a existência de orgasmos a partir dos 6 meses (Pereira, 1987)) infantil conduz a sensações que vão do prazer à curiosidade (Lopez & Fuertes, 1999).
No entanto, estas actividades não são, nesta fase, reconhecidas como manifestações precoces da sexualidade e, portanto, não são reprimidas pelos adultos, pois a sociedade não reconhece o exercício da sexualidade não genitalizada.

Um outro aspecto importante e fundamental da sexualidade infantil são as relações entre o bebé e os adultos que lhe estão próximos (as figuras de apego. com as quais se operam os processos de vinculação). O apego, de acordo com Bowlby (1969), citado por Montagner (1993), é um sistema que garante os vínculos entre os progenitores e as crias, com fins de sobrevivência, mas que no ser humano tem um papel crucial. Bowlby entende a vinculação como a capacidade inata dos recém-nascidos se ligarem aos adultos que lhe estão próximos, sobretudo os que dele cuidam no dia-a-dia.
O bom desenvolvimento depende da qualidade dos vínculos, que por sua vez mediatizam a sexualidade ao longo de toda a vida e, muito particularmente, durante a primeira infância (Felix. 1995; Lopez & Fuertes, 1999).

A teoria da vinculação de Bowlby ajuda a compreender a nossa capacidade futura de estabelecer relações com boa qualidade afectiva através de padrões de vinculação seguros, o que significa um bom nível de auto-estima e um grau adequado de confiança nos outros (Strecht, 2001). O vínculo afectivo entre a criança e o adulto que a cuida (apego) implica sentimentos, comportamentos e um conjunto de expectativas que se forma durante o primeiro ano de vida.
Na experiência relacional com as figuras de apego, a criança adquire:
a confiança e a segurança que lhe permite abrir-se a contactos com o meio envolvente;
o uso e o significado de formas de comunicação íntimas e informais;
o uso e o significado de expressões emocionais; e
a capacidade de explicitar as suas necessidades, bem como a de satisfazer as necessidades dos outros.

Ao generalizarem estas experiências, as crianças vão posteriormente utilizálas em outras relações sociais, nomeadamente naquelas que impliquem afectos e formas de comunicação íntimas, como o namoro, as relações sexuais e a amizade (Félix, 1995, Lopes&Fuentes, 1999).

De uma forma simplificada e resumida, podemos dizer que as principais características da sexualidade nesta idade são:
1. Importância das figuras de apego nos processos de vinculação.
2. Actividades íntimas de satisfação oral ? mamar, chupar no dedo ? que podem ser entendidas como actividades eróticas não genitais.
3. Reconhecimento dos papéis sexuais, estabelecendo a diferença dos papéis atribuídos a um ou ao outro sexo.

domingo, 13 de novembro de 2011

Sexualidade e Envelhecimento

Todas as pessoas, independentemente do seu sexo, estado civil ou idade, têm direito a uma sexualidade que as satisfaça não só em termos físicos como também emocionais.

Uma das ideias mais comuns na nossa sociedade é a de que as pessoas idosas não têm vida sexual. Esta ideia, bem como muitas outras sobre a sexualidade nesta fase da vida são falsas. Vejamos algumas delas:
Quando a pessoa envelhece o sexo faz mal à saúde.
Os idosos não têm condições físicas que lhes permitam ter uma actividade sexual.
Os idosos não têm interesses sexuais.

Estas ideias fazem com que, socialmente, não seja esperado que um idoso tenha o desejo de ter relações sexuais e ainda menos que demonstre esse desejo. Chega-se a considerar que é de mau gosto que os idosos assumam os seus interesses sexuais.
Por interiorizarem estas ideias, muitos idosos acabam também por pensar que, devido à sua idade, não têm mais o direito a uma vida sexual.

O envelhecimento não implica o desaparecimento da sexualidade. O que pode existir é uma evolução na maneira de estar e de viver a sexualidade. De facto, ocorrem algumas alterações, lentas e progressivas, no corpo dos homens e das mulheres a partir dos 40 anos de idade que podem afectar a sexualidade à medida que a idade avança. Referimos algumas:

Nas mulheres:
- A vagina diminui de tamanho, torna-se mais estreita e perde elasticidade.
- A lubrificação da vagina torna-se mais lenta e surge em menor quantidade.
- Diminui a intensidade e a frequência das contracções da zona pélvica durante o acto sexual.

Nos homens:
- Diminui a produção e emissão de esperma, embora nunca chegue a desaparecer por completo.
- A erecção é mais lenta, menos firme e necessita de mais estimulação.
- Reduz-se a intensidade das sensações do orgasmo.
- Dá-se um aumento do período refractário, ou seja, do tempo de recuperação necessário entre um orgasmo e o seguinte.

É importante notar que estas alterações não ocorrem nem na mesma altura nem da mesma forma em todas as pessoas. Cada indivíduo tem o seu próprio ritmo e, para alguns, estas mudanças não chegam a ser muito pronunciadas.
Também o modo como cada pessoa vive estas alterações é diferente. Algumas encaram-nas como naturais, enquanto que outras ficam alarmadas e preocupadas, pensando que vão deixar de poder ter relações sexuais.

Uma das razões pelas quais isto acontece é porque existe a ideia de que o sexo se reduz ao coito, ou seja, à penetração do pénis na vagina, o que é uma visão muito limitada da sexualidade. Existem muitas formas de dar e de ter prazer numa relação entre duas pessoas, que não apenas através do coito.
As carícias, os beijos, as massagens, a partilha de intimidade e de afectos são algumas de entre outras possibilidades de explorar o prazer sexual durante a velhice como, aliás, em qualquer outra idade.

A masturbação é também uma forma válida de ter prazer, que pode ser utilizada numa relação a dois, bem como (e principalmente) na ausência de um parceiro sexual.

Alguns tipos de doenças, como sejam a diabetes ou a esclerose múltipla, certos medicamentos, como sejam os utilizados para tratar doenças cardíacas ou para a hipertensão, e intervenções cirúrgicas na zona pélvica, podem provocar dificuldades sexuais.

Na mulher, com a menopausa, ocorrem algumas alterações fisiológicas e hormonais que podem igualmente afectar a actividade sexual.

Para melhor lidar com o impacto destas alterações sobre a sexualidade, nomeadamente no sentido de as minimizar, é de grande importância falar com um técnico de saúde. Além do médico de família, pode-se sempre consultar um ginecologista (para as mulheres), um andrologista (para os homens) ou um sexólogo (para ambos) a fim de obter ajuda para ultrapassar eventuais dificuldades sexuais que possa.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sexualidade


A sexualidade, nos seus diversos parâmetros


A sexualidade humana é uma das competências mais interessantes e alargadas das funções vitais, pelo que não deve ser em nenhum caso resumida de uma maneira simplista a relações sexuais e muito menos ao uso do preservativo, como às vezes acontece.

De facto, a sexualidade compreende várias vertentes - afectos, comunicação, companhia, partilha (incluindo a do corpo e a da alma), reprodução, amizade e tantos outros aspectos. Não estranha pois que, ao incluir áreas tão fundamentais, a sexualidade seja, paralelamente à alimentação, um dos instintos mais básicos e determinantes da sobrevivência.

Não estranha também que o ser humano seja um ser dotado de uma sexualidade muito evidente, que se manifesta desde o primeiro momento de vida, e é exercida até ao fim. Poderá não ser expressa, evidentemente, do mesmo modo, da mesma maneira ou com os mesmos ritmos, mas é do cruzamento das diversas curvas sinusóides das vertentes mencionadas acima que se vai construindo os diversos equilíbrios, ao longo da vida, permitindo viver o conjunto da sexualidade de uma maneira harmoniosa, tranquila e gratificante. Muitas vezes, infelizmente, tal não acontece e, seja como for, a construção desse equilíbrio requer muita "maestria", já que a instabilidade, as dúvidas e os conflitos internos e externos, os riscos e os perigos são uma regra quase geral.


O namoro


O namoro é um dos pontos mais interessantes da vivência da sexualidade e pode (deve) ser vivido em todas as idades. Se é, quanto a mim, ridícula a insistência actual de muitos adultos em tentarem atribuir namorados e namoradas a meninos de 3 e de 4 anos (ou mesmo de 8 e 9), a palavra namorar é das mais expressivas e tem vários significados - de facto, (...) "namorar" pode significar: acotiar, agradar, apaixonar, apetecer, arrulhar, atrair, azeitar, cativar, catrapiscar, chamar, cobiçar, cortejar, derriçar, desejar, embelezar, enlevar, falar, flertar, galantear, graxear, namoricar, prosear, rampanar, rascar, rentear, requebrar, requestar, sapecar, seduzir, servir, simpatizar, tourear (in Enciclopédia ?Educar Adolescentes? ? Lexicultural).

Muitas noções poderíamos tirar destes sinónimos, alguns deles verdadeiramente inesperados, mas uma coisa é certa: namorar implica desejo, atracção, cobiça, e todo o processo de "conquista" ("catrapiscar"?!?) do ser amado, que passa por galantear, cativar ou até, segundo o dicionário, por "dar graxa" (azeitar... graxear...)? e também exercer a arte da sedução, uma das artes mais nobres e mais fascinantes (e também mais divertidas) de que o ser humano é capaz. Já a expressão "tourear", confessamos que deverá sempre ser considerada como estando por acaso, pois embora comum na "arte de namorar", não expressa geralmente relações muito transparentes e honestas? mas enfim. Dicionário é dicionário?


Conquistar e ser conquistado - o jogo da sedução


Voltando atrás, há uns milhões de anos (dados surgidos no início de Dezembro de 2002 apontam já para 6 milhões de anos...), quando as raparigas atingiam a menarca e tinham pois a sua primeira menstruação, ficavam capacitadas para ser mães. Os rapazes, por sua vez, ao terem as primeiras ejaculações, eram potenciais pais. Mas se durante alguns milénios, provavelmente, as relações reprodutivas terão sido (com o são ainda em alguns pontos do Planeta) diferenciadas dos afectos, rapidamente as coisas começaram a evoluir no sentido da monogamia (que, repetimos, não é "lei corrente" em muitos pontos e em muitas sociedades e pessoas, sem que possamos fazer sobre isso quaisquer juízos de valor, éticos ou outros). O sentimento de poder masculino, associado ao "ter" (ter "pilinha", leia-se), acasalou bem com o sentimento de "não ter", com o complexo de castração das mulheres, com afinal o culto do "ser" (e às vezes do "parecer"). Eles a quererem conquistar, elas a quererem deixar-se conquistar. Estavam na mesa todos os ingredientes necessários ao jogo ? a um grande jogo.

Por outro lado, estando também na mesa responsabilidades grandes - como o de escolher o pai ou a mãe dos filhos, o companheiro ou a companheira de uma vida e, tantas vezes, o herdeiro ou herdeira de fortunas, bens, terras ou outras coisas semelhantes, bem como a integração na família, no clã, na tribo ou na comunidade - a escolha prévia ao "acasalamento" passou também a ser mais elaborada e a envolver muita outra coisa. Acresce que a chamada "lei do mais forte", que através de várias formas afastava os potenciais concorrentes até deixar o que, geralmente pela sua força física, se conseguia impor, perdeu muita da sua validade - a astúcia, o poder de sedução, o charme (e tantas outras coisas) começaram a ganhar valor. Bem como os verdadeiros afectos e sentimentos.

É assim que surge o namoro - uma fase que começa, muitas vezes, sem se saber muito bem porquê e que evolui com diversos ritmos e desenlaces. De facto, não se sabe muito bem o que, numa pessoa, atrai outra - provavelmente muitos factores, também eles valorizados conforme a personalidade, as expectativas e os desejos e prioridades de cada um. As feromonas, espécie de hormonas sentidas a larga distância pelo nariz, têm o condão de atrair - a ciência explica isso. A beleza (e há tantos conceitos diferentes de beleza, de graça, de ser-se "giro" mesmo se feio, etc, etc), a inteligência, a ternura, a simpatia, o humor, o feitio, a elegância (no corpo e na maneira de ser), enfim, são alguns entre tantos e tantos ingredientes que provocam a atracção e o desejo de conquistar o outro ou a outra.
Depois deste primeiro click, segue-se outra fase: a da confirmação da escolha, que terá que passar por um melhor conhecimento dos pontos fracos e fortes da pessoa amada. Mas o pior é que a paixão e o desejo de conquista, pela sua natureza "transitoriamente patológica", faz muitas vezes (provavelmente sempre) perder a noção crítica e a lucidez - uma pessoa apaixonada não tem os pés na Terra, para ela só o outro existe, e o mundo e as pessoas são algo que perdeu totalmente a prioridade e o valor.


A procura das "certezas"


Outro aspecto importante no início do namoro é tentar ter a certeza, não apenas de que aquela pessoa é a pessoa amada, como a de que as outras que ficaram de fora (mas perto) não são também pessoas amadas, pois para quem começa a desenvolver sentimentos afectivos que nunca experimentou (e se calhar ao longo de toda a vida isto acontece?), é por vezes difícil ter essa certeza. Um dia parece ser aquela pessoa, mas no dia seguinte parece ser a outra. Só que os compromissos que se assumem com uma, excluem à partida (pelo menos nas sociedades ocidentais) compromissos de timbre igual com as outras.

Uma vez tida essa certeza - seja ela mais duradoura ou menos duradoura, mais firme ou menos firme -, "as coisas começam a aquecer", pois o passo seguinte é ser correspondido. "Apenas isso"? mas o "isso" é tanto e às vezes tão penoso!. A gestão desta fase é tremendamente difícil e, em caso de um desenlace negativo, pode dar azo a grandes traumatismos, sentimentos destrutivos da auto-estima e do auto-conceito, e regressões a vários níveis, designadamente uma grande desconfiança e insegurança quanto à capacidade de "conseguir" - o "desempenho" é um dos fantasmas que sempre acompanha os adolescentes, nas suas relações amorosas.

Diga-se também, que tudo isto se passa, pelo menos ao princípio, em linguagem codificada - corporal, falada ou outra -, mas codificada. Há quem avance logo com os termos e os propósitos, sem estar com "rodriguinhos", mas é raro e ainda mal visto. O jogo da sedução é um jogo de interpretações e de sugestões. E tantas vezes, sobretudo para quem é inexperiente (como é o caso dos adolescentes) ou quem não tem grande jeito ou aptidões para estas coisas, as sugestões podem ser mal interpretadas e as interpretações mal sugeridas. Se ela sorri para mim, que fazer? Será que sorriu porque se lembrou de uma coisa engraçada? Será que sorriu porque estava bem disposta? Será que sorriu porque teve um espasmo do músculo risorius? Ou porque até achou piada ao que eu disse, mas não mais do que isso? Ou, pelo contrário, isso e muito mais? Como saber? E se avanço, como quem fez a interpretação mais correcta (leia-se, a que me convém), que fazer se ela diz para eu ir "dar uma curva", que estou a meter-me e que vai chamar alguém e acusar-me de assédio? Ou que, simplesmente, estava a sorrir para o parceiro do lado, eu é que deveria estar estrábico? mas pode ser, mesmo que numa ténue hipótese, que me diga que, sim, que era para mim o olhar dela, porque também se sente atraída.

É neste jogo de parada alta, de grandes inquietações e indefinições, de registos muito subtis e indefinidos que os adolescentes têm que (sobre)viver. Mas é esse mesmo jogo, com todas as vitórias e derrotas, penaltis e cartões amarelos, aplausos e vaias, que vai permitir um enfoque mais certeiro e uma visão cada vez mais lúcida do que se quer, do que se pretende e, sobretudo, do que é possível face ao que se desejaria se fossemos nós a formatar o mundo e as pessoas. Mas se calhar, estaremos enganados - a realidade do século XXI não deixa aos adolescentes a hipótese de perguntar, tímida e inocentemente, ruborizando-se só de pensar nisso "então, qual é a tua música preferida?", mas sim, porventura, de modo directo e incisivo: "então, qual é o teu preservativo preferido?". Mas isso não é namoro, pelo menos no sentido de que estamos a falar. Pode ser uma atitude muito "pragmática" mas mais nada do que isso.


A fase da "manutenção"


Depois de começado o namoro, há uma fase de aprofundamento relacional e dos conhecimentos. A descoberta do corpo da pessoa amada e das potencialidades do nosso próprio corpo com a pessoa amada, o cotejar de pontos positivos e negativos, interesses e desinteresses, defeitos e virtudes, contribui para a constante avaliação dos ganhos e perdas e para a resposta à "velha questão": "valerá a pena?". Esta avaliação é tanto mais complicada quanto é frequentemente pontuada, quer com os desafios externos, de outras pessoas que também se perfilam no horizonte e que também querem entrar no jogo da conquista - pessoas já conhecidas ou novas -, quer com os comentários dos "outros" (família, amigos, colegas).

E se, em alguns casos, mesmo com "acidentes de percurso", arrufos, amuos e zangas (mas com o momento inesquecível e indescritível do "fazer as pazes"), as coisas evoluem na tranquilidade e no sentido da estabilidade - pelo menos durante algum tempo -, noutros o namoro acaba por ser uma fase de constantes altos e baixos, uma sinusóide que leva a um grande sofrimento, conflitos e desânimos, os quais desvirtuam o verdadeira intenção do namoro: o preparar uma solução estável com vista a um futuro comum.


Pais, família, amigos e companhia


Se o namoro é uma coisa para ser fruída a dois, com todo o encantamento que tem essa relação privada e quase mística, não é menos verdade que vivemos em sociedade e que as pessoas não são eremitas, mesmo quando parecem viver no nirvana ou no limbo. E quando outros valores, para além dos afectos e do amor, entram em jogo - "mas de que família é que ela é, afinal?", "vamos a ver a quem vão parar os nossos bens?", "não me parece que seja a melhor pessoa para ser mãe dos nossos netos!", "ele tem cara de quem trabalha pouco e vai querer explorar a nossa filha!" - e tantas outras coisas semelhantes -, o "caldo" corre mais risco de "se entornar", surgindo provas de forças, desaguisados, incompreensões, mal-estares, chegando muitas vezes ao ponto de pré-ruptura ou mesmo rupturas, o que só agrava ainda mais as coisas.

Quantas vezes os pais (e os restantes adultos) confundem as escolhas do adolescente com as suas próprias escolhas - não lhes é pedido que gostem da pessoa escolhida pelos filhos, mas tão só que respeitem a sua escolha. E se existe algo que verdadeiramente incomoda os pais relativamente à namorada ou namorado dos filhos, claro que têm o direito de expressar essas dúvidas (sobretudo se se referirem a algum dado grave) mas com calma e sempre pensando que, em caso de "esticarem a corda", o filho optará quase invariavelmente para o lado do seu amor. O caso contrário pode acontecer: os pais simpatizarem tanto com a pessoa escolhida pelos filhos que mesmo quando as coisas começam a esfriar e a seguir o rumo natural dos acontecimentos (ou seja, encaminhando-se para um fim que convém não ser demasiadamente agónico e prolongado) eles insistem no namoro e defendem-no com "unhas e dentes", mais do que o próprio interessado.

Outro aspecto ainda, sobretudo no princípio do namoro, é a enorme susceptibilidade e sensibilidade dos apaixonados - qualquer comentário menos positivo (mesmo que justo e factualmente verdadeiro) pode causar um pé-de-vento de incompreensão. Não quer dizer que os pais se calem, mas que tenham o bom senso de só dizer o que for estritamente necessário, não se esquecendo que os apaixonados, por definição, vivem na estratosfera e não entendem a linguagem dos terráqueos.

Ainda um conselho: não vale a pena dar demasiada importância aos namoros dos filhos, sobretudo no início e quando são os primeiros. É terrível ver pais a darem um relevo a namoricos que são quase "condutas experimentais", como se se tratasse já de uma coisa definitiva, envolvendo os avós, os tios e sei lá mais quem. Até uma certa idade, esses "namorados" deverão ser considerados como amigos e ficar por aí. Isso evita que haja "hipertrofia" de coisas menores e que, se o namoro acabar, o acontecimento passe a ser um autêntico "problema nacional". Deixa também aos adolescentes a margem de manobra necessária para gerirem da melhor forma o namoro, nos vários aspectos relacionais, incluindo poder pôr-lhe um fim, sem demasiada dor.

Este é uma vertente que os pais têm também que considerar: os receios, riscos, perigos e realidade das doenças de transmissão sexual, da infecção pelo VIH, da gravidez, não devem centralizar as suas preocupações e factores de interesse exclusivamente nessa área. A sexualidade é um fenómeno plurifacetado e que têm a ver com afectos e sentimentos. As relações sexuais são fundamentais nesse processo e é natural que, a páginas tantas (às vezes no "prefácio", às vezes só no "epílogo"), o processo de descoberta do corpo e da alma acabe por terminar nas relações sexuais. É bom os adolescentes estarem prevenidos e serem conhecedores dos métodos anticonceptivos e preventivos das situações de perigo - mas espera-se que os pais tenham tido, ao longo de toda a vida, uma acção pedagógica gradual que evite ter que chamar os filhos, à última da hora e sobre os acontecimentos, para uma conversa "sobre abelhas e flores".


O fim do namoro... ou não...


Os namoros podem ou não ter fim. Por vezes acabam por desistência de um ou dos dois interessados. Com maior ou menor sofrimento, de uma ou de ambas as partes, mas sempre com a necessidade de fazer um luto, porque o fim de uma relação, mesmo que por mútuo acordo e/ou com sensação de alívio, é sempre uma perda e exige um período de reflexão e de balanço. Não fazer esse luto é perigoso, porque ele virá, inexoravelmente, mais tarde, podendo cair como uma assombração sobre uma relação posterior.

Outras vezes o namoro evolui para um relacionamento estável e permanente, com vivência em comum, casamento ou seja a forma que for, filhos, etc. Mas mesmo nesses casos - ou até sobretudo nesses casos -, é bom que o namoro continue. Sempre. Namorar é bom e é um factor protector. Mesmo com filhos pequenos, mesmo com filhos menos pequenos. A relação "horizontal" entre duas pessoas deve sempre manter-se e é independente dos outros relacionamentos e afectos que possam existir. E não há idades fixas nem limitativas para namorar? porque o namoro, no que tem de sonhador, de reconfortante, de bom, é necessário e um bálsamo para qualquer idade.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sexo tântrico

Há já algum tempo que se ouve falar em sexo tântrico e nas supostas maravilhas sensoriais que provoca em quem o pratica. Mas, apesar de muito se debater o assunto, poucos são os que realmente sabem do que se trata. Se quiseres aprofundar os teus conhecimentos, não pares de ler!

Tantra é o nome dado aos antigos textos de tradição oral do período pré-clássico da Índia, isto é, de há mais de 5000 anos. Mais tarde, alguns desses textos foram escritos e tornaram-se livros ou escrituras secretas do hinduísmo.

Na época de origem do Tantra, a Índia era habitada pelos darvixes, cuja sociedade e cultura eram matriarcais, epicuristas e não repressoras. Por isso, passaram à história como um povo tântrico, já que essa filosofia é caracterizada principalmente por essas três qualidades.

O Tantra, o Sámkhya e o Ioga são três das mais antigas filosofias indianas e as suas origens remontam à Índia do período darvíxico. Talvez por isso tenham mais afinidades entre si do que cada uma delas com qualquer outra filosofia surgida posteriormente.

A proposta do Tantra é promover o autoconhecimento e evolução interior partindo do prazer. Ou seja, é uma exploração tão intensa do prazer físico que acaba por extrapolar os seus próprios limites, transbordando para um "orgasmo espiritual" ou estado de graça.

Confuso?
Não é assim tanto. Vamos por partes!

Para quem não está familiarizado com o acto em si, o sexo tântrico pode soar a algo como "tortura". Afinal, o pouco que se diz sobre o assunto é que é uma espécie de processo de prolongamento do acto sexual sem que haja necessidade de se atingir o orgasmo.
Então por que razão terá tantos adeptos?

Porque o sexo tântrico não é apenas isso. No fundo, essa é só uma pequena parte de uma filosofia muito mais abrangente, que requer uma mudança profunda no modo de vida e na forma de encarar o sexo.

Tantra significa "instrumento de expansão". É um processo que deve ocorrer nos planos mental, espiritual e físico. O objectivo é atingir a realização pessoal e espiritual. E o sexo entra como um ritual sagrado de troca de energia.

Mas como é possível misturar-se sexo e espiritualidade na mesma história?, poderás perguntar…
Bem, temos de compreender que esta forma pudica de encarar a sexualidade é algo característico do mundo ocidental. Basta recordar que o "livro dos livros" sobre sexualidade (o Kama Sutra) foi escrito no século IV pelo nobre hindu Vatsyayana.

Mas para que haja esse envolvimento espiritual no acto sexual, o Tantra defende que é preciso haver uma entrega total, com total confiança no parceiro. É também verdade que as pessoas envolvidas têm de ter uma atitude especial, pois é requerida uma grande sensibilidade e sentido de requinte para assimilar os segredos do Tantra. É mesmo necessário que os candidatos a atingir semelhantes níveis de prazer vejam a sexualidade como uma arte.

Afirma-se ainda que quem se queira dedicar à prática do sexo tântrico terá de deixar para trás os denominados "pecados tântricos": o ciúme e a possessividade.
Isto porque a filosofia do Tantra ensina que o corpo é um templo, o sexo é sagrado e não existem fronteiras entre corpo e espírito.

A relação tântrica começa com um ritual de preparação do ambiente e longos preliminares. Como o orgasmo não é a meta, o Tantra ajuda a combater a ansiedade, eliminando os objectivos tradicionalmente imediatos do acto sexual e convida os amantes a abandonarem-se ao encontro, a entregarem-se e manterem-se completamente presentes, com os sentidos e a atenção despertos.

Mas, para chegar ao nirvana é necessário que o homem não ejacule e que a mulher retarde o orgasmo. Nem todos os que tentam conseguem, pois isso exige níveis de concentração e autocontrolo, que podem ser atingidos através de preparação física e espiritual.
Os praticantes são aconselhados a seguir uma alimentação equilibrada, a não beber e a não fumar - a saúde do corpo está intimamente ligada ao desenvolvimento do espírito. Os adeptos reaprendem a respirar, a alinhar a postura e a aumentar a capacidade de concentração.

Depois basta deixar a energia pulsar de baixo para cima e não no sentido contrário. Ou seja, muitos casais, quando estão em pleno acto sexual, utilizam fantasias para se estimularem e deixam que a energia da mente flua para a zona pélvica. Mas, com o Tantra, passa-se o contrário.

É o próprio acto em si que deverá enviar energias sexuais para o corpo todo, convertendo-o num pólo de sensibilidade. Assim, qualquer parte do corpo sentirá prazer como se fosse um extenso órgão sexual que cobrisse toda a amplitude do corpo e da mente.

Nesse estado, basta um toque na pele, um beijo ou a sensação da respiração do parceiro para desencadear experiências sensoriais e de envolvimento inimagináveis.

E é disto que se fala quando se menciona o factor longevidade do acto sexual através das técnicas do Tantra.

Mas, como já percebeste, “ser tântrico” exige sinceridade, honestidade, desprendimento. Não é apenas mais uma posição do Kama Sutra.
É uma filosofia de vida!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sexo e drogas - Tudo o que é bom é ilegal, imoral ou faz mal à saúde?

Quando pensamos em tudo o que é ilegal, imoral ou que faz mal à saúde, existem duas coisas que estarão necessariamente nessa lista. São elas o sexo e as drogas. Não que seja verdade que em todos os casos essa associação seja verdade. Ora vejamos:

Se o consumo de drogas actualmente já não é considerado um crime, podendo, pelo contrário, levar a que o indivíduo seja encaminhado para um tratamento, o mesmo já não se passa com o tráfico de substâncias ilegais que é ainda e duramente punido por lei.

Por sua vez, o sexo não é ilegal, ainda que durante muito tempo se tenha penalizado todo e qualquer comportamento sexual que não fosse considerado adequado, sendo que o que era considerado adequado seria apenas o coito que tivesse como objectivo a reprodução – de resto, uma concepção bastante limitada da sexualidade humana!
Oscar Wilde, célebre escritor inglês do século XIX foi preso, por ter sido acusado do crime de sodomia, uma vez que era homossexual. Porém, ainda hoje existem certas actividades que são consideradas ilegais, como sejam todas aquelas que vão contra a autodeterminação sexual do indivíduo. Exemplo disso é a pedofilia, além dos exemplos óbvios da violação ou da lenificação (proxenetismo).

É claro que a actividade sexual dita “normal” entre duas pessoas que a desejem e consintam é legalissima, excepto nas situações em que ocorre em contextos considerados menos apropriados, como sejam no meio da rua ou em qualquer outro local público, como sejam uma discoteca ou um centro comercial.

Quando falamos do que é imoral ou não, referimo-nos a padrões, que são individuais e subjectivos, mas também sociais e culturalmente determinados, do que é considerado correcto ou incorrecto, bom ou mau, enfim, referimo-nos a padrões que implicam sempre uma avaliação positiva ou negativa relativa a um dado objecto ou acontecimento. No que respeita às drogas, assim como no que respeita à sexualidade, a aplicação de critérios de moralidade vai depender de quem os está a utilizar e do contexto histórico, social e cultural em que se encontra.

Assim, de alguma forma o consumo de drogas sempre foi julgado por uma parte importante da população de uma forma negativa. A imagem do consumidor de drogas foi muitas vezes associada à de um indivíduo pérfido e perigoso e a droga considerada como um cancro social, responsável por vários males. É claro que, para contrabalançar esta posição, temos algumas outras pessoas, que certamente não serão em tão grande número, que consideram a droga como algo de interessante e até divertido. Provavelmente são mais os jovens que pensam desta forma, abertos que estão a novas experiências e ávidos de sensações agradáveis e fáceis, mas não apenas os mais novos advogam desta posição.

No que respeita à posição moral sobre a sexualidade, esta obviamente que também variou ao longo do tempo. Ao contrário do que se possa pensar, nem sempre existiu a ideia de que a sexualidade era qualquer coisa negativa e em alguns contextos chegou, e chega ainda nos dias de hoje, a ser considerada como algo de extremamente positivo, uma forma superior de espiritualidade, como é o caso das correntes tântricas da religião hindu (daí a questão do sexo tântrico), que deram origem à construcção de templos com estátuas de casais a terem relações sexuais que podem ainda actualmente ser vistas em certas zonas da Índia.

Mas também no ocidente se encontram alturas da História em que existia uma maior abertura para com as questões da sexualidade, por exemplo durante o Renascimento, o que permite, por exemplo, que Leonardo da Vinci realize os seus estudos sobre reprodução e sobre anatomia sexual e que ele próprio e outros realizem algumas das belíssimas obras de arte que todos já vimos e que retratam corpos perfeitos e despudorados. Por outro lado, períodos como a Idade Média ou o século XIX, em que predominou a corrente do Vitorianismo, verifica-se uma repressão explícita e por vezes mesmo agressiva da sexualidade.

Na actualidade, vivemos num período de transição, em que assistimos a uma progressiva abertura face à sexualidade mas em que, ao mesmo tempo, ainda existem ecos de um passado que condenava a sexualidade e que a associava ao pecado e a tudo aquilo que pode ser negativo no ser humano – visão esta radicalmente diferente da hindu que já referimos.

Por último, resta-nos a questão de saber se sexo e drogas fazem mal à saúde. É uma questão também ela controversa, mas em relação à qual temos já certas informações que nos chegam da investigação científica e já não da subjectividade da moral ou da rigidez, por vezes desadequada (em relação à diversidade de realidades com que tem de lidar), da lei.

Quando falamos dos efeitos das drogas para a saúde, temos de ter a consciência de que estamos a referirmo-nos a muita coisa diferente. Ou seja, de todas as drogas que existem, ou mesmo se nos ficarmos por aquelas que são mais comuns entre nós, existem algumas que se sabe serem mais ou menos inócuas para a saúde, como é o caso da heroína ou do cannabis, e outras que podem afectar a saúde de uma forma por vezes grave, como é o caso do álcool, dos barbitúricos ou do ecstasy. Em relação a estas últimas, sabemos que a sua toma pode ter efeitos por vezes graves sobre o organismo, como é o caso de problemas cardíacos em consumidores de ecstasy, ou dos problemas de fígado em alcoólicos, sendo que alguns destes efeitos são potencialmente irreversíveis.

Conhecem-se, de resto, alguns casos de pessoas que morreram depois do consumo de ecstasy, para não falar dos problemas de hepatites e cancro de consumidores habituais e em excesso de álcool. No que respeita a muitas das outras drogas, e por estranho que possa parecer, o facto é que muitas delas não têm um efeito directo negativo sobre a saúde. Um indivíduo pode consumir heroína uma vida inteira sem que por isso chegue a ter qualquer problema de saúde grave.

É por esse motivo que alguns defendem que se deve dar droga aos toxicodependentes, porque essa seria uma maneira de evitar alguns dos problemas sociais e médicos que se encontram associados à toxicodependência. Mas, por outro lado, há a ter em conta os efeitos que a droga tem sobre a consciência e sobre o comportamento. O que acontece é que muitos toxicodependentes, em particular de drogas duras, acabam por fazer coisas que lhes afectam a saúde. Assim, ainda que não seja a droga em si a afectar a saúde destes indivíduos de uma forma directa, eles acabam por ter muitos problemas de saúde devido ao que fazem para arranjar droga (por exemplo, prostituir-se), ao que fazem quando estão sob o efeito da droga (por exemplo, conduzir sob o efeito de álcool) ou ainda ao que fazem por causa das consequências sociais da toxicodependência (por exemplo, dormir na rua ou não ir ao médico quando se está doente).

Mesmo um simples charro pode afectar o que o indivíduo faz ou a forma como pensa e levá-lo a fazer coisas que de outro modo não faria, como seja ter relações sexuais sem preservativo ou qualquer coisa tão simples como seja atravessar a rua sem olhar para os dois lados e, devido a isso, ser atropelado. Certamente que muitas mais coisas haveriam a dizer sobre esta questão da relação entre a droga e a saúde, sendo que me limitei a apontar alguns dos que me parecem mais importantes. Não queria deixar de referir, porém que muitas vezes quando se consomem drogas está-se também a levar muitos brindes.

O que eu quero dizer com isto é que uma das formas de aumentar o lucro que se tem com a droga é misturando-lhe outras substâncias, os chamados produtos de corte, e que esses sim podem ser prejudiciais para a saúde. Tal é o caso do gesso, do giz ou até do amoníaco ou do cimento, que podem ser misturados na heroína ou na cocaína, muitas vezes com efeitos fatais para quem os consome.
No caso da sexualidade, o que se sabe sobre as suas relações com a saúde não é muito mas, regra geral, o que se pode dizer é que o sexo faz bem à saúde! Desde o facto de constituir uma forma de exercício físico moderado, passando pela possibilidade que oferece de estimular a círculação sanguínea, sabe-se ainda que pode ser uma forma de aliviar a tensão e até de atenuar a dor em pessoas que possuam problemas de dor crónica. Falando em saúde num sentido lato, que inclui tanto a vertente física como a emocional, a sexualidade acaba também e obviamente, por ter uma importância determinante na manutenção da saúde mental, por exemplo, por possibilitar a proximidade e a intimidade entre um indivíduo e o seu parceiro, aumentando a sua satisfação e bem estar em relação à vida em geral, entre muitas outras coisas.

É claro que, no meio de todos estes aspectos mais positivos, não nos podemos esquecer que existem aspectos da sexualidade e comportamentos sexuais que podem afectar de uma forma negativa a saúde. Aliás, hoje em dia é muito fácil cair na tentação de apenas abordar a sexualidade em relação ao que de mau ela pode trazer, o que se deve, em grande medida ao aparecimento da SIDA em inícios dos anos 80, com todas as complicações que veio a trazer em termos de saúde e em termos sociais. De resto, a não utilização do preservativo, a possibilidade de engravidar num momento da vida em que não se deseja que tal aconteça, uma interrupção da gravidez feita em condições pouco adequadas, uma violação, uma doença sexualmente transmissível, são alguns exemplos de situações em que saúde e sexualidade se intersectam da pior forma, com consequências graves para o bem-estar do indivíduo e, consequentemente, para o daqueles que o rodeiam.


Conclusões gerais

Direito, moral e saúde: três áreas que com alguma frequência são associadas a drogas e ao sexo, ambas frequentemente consideradas polémicas. Desta nossa análise, um tanto ou quanto superficial, relativamente às questões que se levantam a propósito da toxicodependência e da sexualidade quando os parâmetros de leitura são estes três, resta-nos tecer alguns comentários em jeito de conclusão:

Consumo de substâncias e sexualidade desde sempre estiveram presentes na História da humanidade. O que variou foi a forma como ambas foram encaradas, sendo que, em alguns momentos, existiu uma maior abertura em relação às mesmas e noutros parece que predomina a repressão.
Aparentemente, no momento actual existe uma maior abertura social em relação a estes temas, abertura esta que é progressiva em relação à sexualidade, ainda que em relação ao consumo de drogas o mesmo não seja tão obvio. De qualquer modo, é possível que algo de semelhante possa estar a ocorrer, o que se pode verificar a propósito da recente descriminalização do consumo de substâncias e de algumas medidas políticas relacionadas com o incentivar do tratamento, como contraponto à defesa da punição do consumidor.

No imaginário popular, sexo e drogas sempre se encontraram de alguma forma associadas, fazendo ambas parte do mesmo grupo de actividades mais ou menos ilícitas, a que certos grupos marginais da sociedade dedicam uma parte considerável do seu tempo, em vez de estarem a fazer algo de útil para a sociedade. Pelo facto de serem actividades que implicam um abandono ao prazer e à vivência daquilo que é muitas vezes considerado como oposto à ordem natural das coisas, acabam ambas por ser vistas como ameaças à estabilidade e coesão da sociedade. Implícita a esta ideia está que, se todos nos dedicassemos a consumir drogas e a praticar sexo, certamente que a sociedade tal como a conhecemos deixaria de existir.

Por último, há também que não esquecer que muitas pessoas procuram consumir drogas por motivos sexuais. Ou seja, por vezes o motivo que leva algumas pessoas a consumir drogas pode ser por quererem sentir-se mais descontraídas e, portanto, mais capazes de travar novos conhecimentos. Outras tomam certas drogas porque acham que vão ter mais prazer nas relações sexuais. Outras ainda, tomam-nas porque são muito inibidos em relação ao sexo e por isso pensam que vão ser mais capazes de se envolver em relações sexuais se consumirem a droga A ou B. Quase todas as drogas podem ser utilizadas por estes motivos, ainda que algumas sejam mais associadas a esta questão, como sejam o álcool, o cannabis ou o ecstasy.

Sem dúvida que, se a pessoa estiver um pouco desinibida, acaba por estar mais disponível para um envolvimento sexual. Pode até acontecer que tenha certos comportamentos e que se envolva com certas pessoas, o que não faria se estivesse no seu estado “normal”. Porém, de investigações realizadas, sabemos que álcool e drogas podem, pelo contrário, prejudicar a actividade sexual, por exemplo, dificultando a erecção no homem e a lubrificação vaginal da mulher. No caso do ecstasy, então, a perspectiva é ainda pior: apesar de as pessoas que consomem esta droga dizerem que se sentem muito próximas das outras – é a chamada love drug – o facto é que sob, o seu efeito, raramente se consegue ter relações sexuais.

O mesmo acontece com os consumidores de heroína que habitualmente perdem o interesse sobre a sexualidade, uma vez que, de entre outros motivos, toda a sua vida acaba por estar centrada em torno da droga, passando tudo o resto a ser secundário, ainda que muitas vezes se prostituam para obter dinheiro para os seus consumos, pelo que aí a sexualidade tem um papel instrumental – é utilizada em função de um outro fim considerado mais importante.


Sexo e drogas, legais, ilegais, morais, imorais, bons e maus para a saúde. Como tudo na vida, deverão ser utilizados com conta peso e medida. Mesmo em relação ao álcool, existem médicos que aconselham que um copo de vez em quando faz bem à saúde. É claro que o ideal é que as pessoas consigam evitar as drogas porque de facto podem, na maioria das circunstâncias ser prejudiciais para si próprias e também para terceiros.

Em relação à sexualidade, já não se pede o mesmo... Pobres de nós se as relações sexuais tivessem que ser evitadas por poderem fazer mal. Apesar de que, também em relação à sexualidade, se tenha que ter certos cuidados e que também ela deva ser utilizada com moderação e ponderação quanto baste, para que não chegue a ser ilegal, imoral ou que faça mal à saúde...

sábado, 5 de novembro de 2011

Sexo e desporto

O sexo como acto por si só tem poucos ou nenhuns efeitos na performance competitiva. Não são as relações sexuais que prejudicam a performance, é a falta de sono, as noitadas ou, ironicamente, a própria procura de sexo. Está cientificamente comprovado que o tempo de repouso é essencial a uma boa performance desportiva. Por outro lado e devido à ausência de certezas científicas, a relação entre a abstinência sexual e o desporto de alta competição, é fonte de crendice e discussão.

À semelhança dos mitos criados em volta da sexualidade, muitos foram os argumentos utilizados, ao longo dos séculos, a fim de proibir as relações sexuais antes das competições. Para os gregos sémen era força e vida, devia ser preservado e não desperdiçado. Mais tarde, na época medieval, um herói devia ser abstinente, permanecer puro para conseguir vitórias; a ausência do prazer sexual despertava uma maior agressividade e consequentemente uma melhor performance desportiva.

Mais recentemente foram desenvolvidos alguns estudos relativamente à testosterona, hormona potencial do desempenho atlético, resistência e capacidade física. Sabe-se que os níveis da testosterona diminuem temporariamente após as relações sexuais. Mas será a actividade sexual assim tão corrosiva do equilíbrio calórico? Na realidade, a energia despendida não atinge elevados níveis calóricos e o sexo pode ser uma estratégia anti-stress, um meio de aliviar a pressão característica dos desportos de alta competição.

Estes são alguns dos aspectos físicos desta problemática sendo também necessário ter em consideração os aspectos psicológicos que variam consoante o atleta e a sua maneira de lidar com a própria sexualidade. Quando falamos de futebol ou de qualquer outra prática desportiva de equipa é importante pensar que as vésperas das competições são caracterizadas por uma rotina preparatória que visa fortalecer a unidade em torno da equipa. Se pensarmos exclusivamente na grandiosidade do mundo do futebol e do impacto do jogo e do negócio, conseguimos compreender a exigência de uma excelente forma competitiva a nível individual, mas também em termos de equipa.

Claro que se podem evitar exageros como obrigar contratualmente os jogadores à abstinência. Não se deve punir por lei a prática de um dos actos mais instintivos e naturais, mas também é preciso compreender e respeitar regras e limites. Tal como nos esforçamos por trabalhar em equipa, dividir tarefas, respeitar horários de trabalho, cumprir objectivos, horas de formação, assim como todos assumimos responsabilidades inerentes ao nosso trabalho - o mesmo se espera destes desportistas de alta competição.

A vida sexual faz parte da esfera do privado, da vida pessoal e da gestão que cada um faz dela. Limitar ou proibir será desresponsabilizar os atletas. O treinador terá um papel importante no aconselhamento, mas caberá ao atleta o bom senso na gestão do que é a sua vida privada e de que modo ela interfere na sua vida profissional.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Quando um amigo tem SIDA

Quando alguém que conhecemos é atingido pela SIDA, sentimo-nos impotentes, desamparados, temos medo de não estar à altura de lidar com a angústia que isso provoca. Se se trata de um amigo íntimo, decerto que lhe diremos "telefona-me sempre que precisares de qualquer coisa". Mas, reconheçamos, temos medo que isso aconteça.

Não devemos evitar este amigo que precisa de nós pois podemos ser uma fonte de de conforto e, logo, de esperança (nesse momento, um verdadeiro amigo é mais valioso do que nunca). Se queremos sinceramente ajudar essa pessoa, as sugestões que vêm a seguir poderão permitir que o façamos da melhor maneira. O texto que aqui reproduzimos foi concebido pela Associação Abraço.


Vida prática

Telefone-lhe para saber se pode passar lá em casa. Deixe o seu(ua) amigo(a) decidir; ele(a) pode não ter vontade de o receber nesse dia.
Peça-lhe a lista de compras a fazer. Telefone-lhe a saber o que é que ele(a) precisa da mercearia ou do talho. Carregar os sacos das compras é cansativo.
Telefone-lhe e diga-lhe que gostaria de cozinhar um petisco. Deixe-o(a) escolher o dia e a hora da refeição. Programe o seu tempo de forma a poder partilhar calmamente essa refeição.
Proponha-se a ajudá-lo(a) a responder às cartas difícieis que colocam problemas, em especial a correspondência administrativa e aquela que ele(a) evita responder. Tente evitar-lhe os problemas relacionados com o pagamento de facturas em atraso (telefone, electricidade...).
E as limpezas domésticas? Sabe que muitas vezes uma depressão começa numa casa desarrumada. Ajude-o(a) nas lavagens da roupa, limpe o pó, cuide dasplantas e dê de comer aos animais domésticos, que são muitas vezes a companhia mais chegada que o(a) seu(ua) amigo(a) tem.
Ajude-o(a) a pentear-se, a fazer a barba e a cuidar da aparência física.
Deixe o(a) seu(ua) amigo(a) exprimir-se. Encoraje-o(a) a tomar decisões, mesmo as mais banais. A doença fez-lhe certamente perder o controlo de muitos aspectos práticos da vida. Não lhe negue a oportunidade de tomar decisões, por insignificantes e mínimas que lhe possam parecer.
Seja imaginativo(a)! Leve-lhe jornais, revistas, livros, CDs, flores, um doce. Agora tudo isso pode ter muita importância, para lhe dar alegria e calor humano.
Se o(a) seu(ua) amigo(a) segue um tratamento relacionado com a dependência de drogas pode acompanha-lo(a) às consultas. Por vezes, os horários das tomas dos medicamentos são complicados e difícies de memorizar. Pergunte-lhe se precisa de ajuda para programar o despertador ou ofereça-se para lhe telefonar se ele(a) achar necessário. Mas, tenha cuidado: evite insistências indesejáveis.


Tempos livres

Uma saída, um passeio juntos pode ser muito agradável. Tenha em consideração os limites da resistência física do(a) seu(ua) amigo(a).
Celebre com ele(a) as datas festivas; proponha-lhe decorar a sala ou o quarto. Ofereça-lhe uma prenda. Leve-o(a) a convidar os amigos mais chegados. As festas não estão todas marcadas no calendário... é fácil inventá-las.
Sugira-lhe um passeio de carro à praia ou ao campo, uma ida ao cinema ou qualquer outra actividade que o(a) faça sentir melhor.
Conte-lhe os pequenos acontecimentos quotidianos. Ponha-o(a) ao corrente das actividades do seu círculo de amigos.


A propósito da doença

O(A) seu(ua) amigo(a) talvez esteja cansado de falar sobre o seu estado de saúde. Mas se ele(a) sente necessidade de o fazer ou de falar do medo de morrer, não o impeça. Quem, para além de si, poderá escutá-lo(a)?
Pode pôr-lhe questões sobre a sua doença. Mas tente perceber se o(a) seu(ua) amigo(a) tem vontade de ter esse tipo de conversa.
Se o acha com boa cara diga-lho, mas só se for caso disso. Se o aspecto físico do(a) seu(ua) amigo(a) mudou, não tente ignorá-lo. Não precisa de mentir. É a dignidade do doente que está em jogo. mas nada o impede de ajudá-lo(a) a melhorar o seu aspecto.
Não passe o tempo a dar-lhe lições de moral! E sobretudo nada de lições de coragem. Se o(a) seu(ua) amigo(a) enfrenta a doença de uma forma que considera não ser a melhor, não o(a) critique severamente. Talvez não possa compreender os estados de espírito e as escolhas que ele(a) tem de enfrentar.
Não confunda a aceitação da doença com fatalismo. Não deixe o(a) seu(ua) amigo(a) sentir-se culpado(a) por estar doente. Lembre-lhe que esta doença não é provocada por um "estilo de vida" mas sim por um vírus.


Ajuda e conforto

Reconfortar pode ser muito simples, basta estar presente. Não hesite em dar-lhe um beijo, fazer-lhe uma festa ou acariciar. A SIDA não se transmite assim - todos o sabemos. Mas talvez não se tenha dado conta que, com o simples gesto de pousar a mão na mão do(a) seu(ua) amigo(a) pode demonstrar-lhe que está perto dele(a).
Cumpra todas as suas promessas.
Não precisa de ter sempre motivo de conversa. O silêncio é também importante: uma presença amiga pode ajudar a adormecer, enquanto que a solidão pode manter uma vigília ansiosa. Pode-se simplesmente ouvir música ou ver televisão em conjunto.
Prepare-se para a eventualidade de o(a) seu(ua) amigo(a) ter períodos de cólera sem razão aparente, mesmo que pense que tem dado o seu melhor. Como todos nós, os doentes têm dias bons e dias maus. Nos dias bons, trate o(a) seu(ua) amigo(a) da mesma maneira que trata todos os seus amigos mas, nos dias maus, tenha um cuidado especial com ele(a). Lembre-se que, com frequência, todos nós manifestamos a nossa revolta e a nossa frustração com aqueles que estão próximos porque sabemos que nos compreendem. O(A) seu(ua) amigo(a) que está doente não deve sentir-se impedido de demonstrar a sua angústia.
Se vai estar fora, escreva-lhe um postal.
Se ambos têm fé, acompanhe-o(a) à igreja ou reze com ele(a). Não hesite em compartilhar a sua fé com o(a) seu(ua) amigo(a). A espiritualidade pode ser um recurso valiosíssimo, especialmente nesta altura.
Querem ter relações sexuais? Podem fazê-lo, uma vez que ambos sabem quais as precauções que devem tomar para se protegerem. Sejam imaginativos. A ternura pode exprimir-se através de gestos, carícias e massagens.
Fale com o(a) seu(ua) amigo(a) no futuro. Amanhã, na próxima semana, no ano que vem... É importante olhar para o futuro sem negar a realidade do presente. É importante ter esperança.


A família e os amigos

Os que se ocupam do(a) seu(ua) amigo(a) também precisam de falar com alguém. Convide-os a sair consigo. Faça-lhes companhia. Embora seja o(a) seu(ua) amigo(a) que está doente, eles podem sentir-se "em baixo".
Se o(a) seu(ua) amigo(a) tem filhos, ofereça-se para os acompanhar à escola ou ao dentista, por exemplo. se não vivem com ele(a) convide-os para um passeio ou para uma ida ao cinema.
Finalmente, trate de si próprio também. Dê atenção às suas próprias emoções e saiba respeitar os seus limites. Converse com os seus amigos, com a família ou com um grupo de apoio. Sentindo-se apoiado, conseguirá ajudar melhor o seu amigo(a) que está doente.

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Objectivo Mínimos da Ed.Sexual (por Ciclo)

1.º ciclo (1.º ao 4.º anos)

- Noção de corpo;

- O corpo em harmonia com a Natureza e o seu ambiente social e cultural;

- Noção de família;

- Diferenças entre rapazes e raparigas;

- Protecção do corpo e noção dos limites, dizendo não às
aproximações abusivas.


2.º ano
- Para além das rubricas incluídas nos programas de meio físico, o professor deve esclarecer os alunos sobre questões e dúvidas que surjam naturalmente, respondendo de forma simples e clara.


3.º e 4.º anos
- Para além das rubricas incluídas nos programas de meio físico, o professor poderá desenvolver temas que levem os alunos a compreender a necessidade de proteger o próprio corpo, de se defender de eventuais aproximações abusivas, aconselhando que, caso se deparem com dúvidas ou problemas de identidade de género, se sintam no direito de pedir ajuda às pessoas em quem confiam na família ou na escola.


2.º ciclo (5.º e 6.º anos)
- Puberdade — aspectos biológicos e emocionais;

- O corpo em transformação;

- Caracteres sexuais secundários;

- Normalidade, importância e frequência das suas variantes
biopsicológicas;

- Diversidade e respeito;

- Sexualidade e género;

- Reprodução humana e crescimento; contracepção e
planeamento familiar;

- Compreensão do ciclo menstrual e ovulatório;

- Prevenção dos maus tratos e das aproximações abusivas;

- Dimensão ética da sexualidade humana.


3.º ciclo (7.º ao 9.º anos)
- Dimensão ética da sexualidade humana:

- Compreensão da sexualidade como uma das componentes
mais sensíveis da pessoa, no contexto de um projecto de vida que integre valores (por exemplo: afectos,ternura, crescimento e maturidade emocional, capacidade de lidar com frustrações, compromissos, abstinência voluntária) e uma dimensão ética;

- Compreensão da fisiologia geral da reprodução humana;

- Compreensão do ciclo menstrual e ovulatório;

- Compreensão do uso e acessibilidade dos métodos contraceptivos e, sumariamente, dos seus mecanismos de acção e tolerância (efeitos secundários);

- Compreensão da epidemiologia das principais IST em Portugal e no mundo (incluindo infecção por VIH/vírus da imunodeficiência humana — HPV2/vírus do papiloma humano — e suas consequências) bem como os métodos de prevenção.

- Saber como se protege o seu próprio corpo, prevenindo a violência e o abuso físico e sexual e comportamentos sexuais de risco, dizendo não a pressões emocionais e sexuais;

- Conhecimento das taxas e tendências de maternidade e da paternidade na adolescência e compreensão do respectivo significado;

- Conhecimento das taxas e tendências das interrupções voluntárias de gravidez, suas sequelas e respectivo significado;

-Compreensão da noção de parentalidade no quadro de uma saúde sexual e reprodutiva saudável e responsável;

- Prevenção dos maus tratos e das aproximações abusivas.

Ensino secundário
- Compreensão ética da sexualidade humana.

- Sem prejuízo dos conteúdos já enunciados no 3.º ciclo,sempre que se entenda necessário, devem retomar -se temas previamente abordados, pois a experiência demonstra
vantagens de se voltar a abordá -los com alunos que, nesta
fase de estudos, poderão eventualmente já ter iniciado a vida sexual activa. A abordagem deve ser acompanhada por uma reflexão sobre atitudes e comportamentos dos
adolescentes na actualidade:

- Compreensão e determinação do ciclo menstrual em geral, com particular atenção à identificação, quando possível, do período ovulatório, em função das características dos ciclos menstruais.

- Informação estatística, por exemplo sobre:
-Idade de início das relações sexuais, em Portugal e na UE;
- Taxas de gravidez e aborto em Portugal;
- Métodos contraceptivos disponíveis e utilizados; segurança
proporcionada por diferentes métodos; motivos que
impedem o uso de métodos adequados;
- Consequências físicas, psicológicas e sociais da maternidade
e da paternidade de gravidez na adolescênciae do aborto;
- Doenças e infecções sexualmente transmissíveis (como
infecção por VIH e HPV) e suas consequências;
- Prevenção de doenças sexualmente transmissíveis;
- Prevenção dos maus tratos e das aproximações abusivas.

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