terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sexualidade Infantil - do nascimento ao 2.º ano de vida

O período que decorre entre o nascimento e a aquisição da linguagem é um período marcado por um extraordinário desenvolvimento mental. De acordo com Piaget (1978), esta fase nem sempre é devidamente reconhecida por não ser acompanhada pelo desenvolvimento da linguagem, o que não nos permite seguir o progresso da inteligência e dos sentimentos, como acontecerá mais tarde? (Piaget, 1978:18).

Este período mostra-se decisivo para todo o desenvolvimento posterior, pois, em dois anos, a criança ganha um conjunto de novas e importantes competências, como seja o aparecimento da marcha, o início da linguagem e do controlo dos esfíncteres. Todas elas tornam a criança mais independente e com maior capacidade de explorar o meio.

Se a primeira fonte de prazer corporal se encontra na região oral e a amamentação é, sem dúvida, uma fonte de prazer expressivo para o recém-nascido, com o desenvolvimento e maturação do sistema nervoso central, e com a gradual aquisição da coordenação motora, a criança lança-se à descoberta do seu corpo e dos prazeres que este lhe proporciona (Piaget, 1978; Felix, 1995; Lopez & Fuertes, 1999; Strecht, 2001).

É um facto da observação quotidiana que os bebés e as crianças mexem e interessam-se pelos seus órgãos genitais. Esta ?masturbação? (entende-se esta masturbação infantil como a manipulação dos órgãos genitais, observável nos rapazes a partir dos 6/7 meses e nas raparigas a partir dos 10/11 meses; no entanto, e de realçar que autores como Bakwin (1973) e Kinsey (1953) apontam para a existência de orgasmos a partir dos 6 meses (Pereira, 1987)) infantil conduz a sensações que vão do prazer à curiosidade (Lopez & Fuertes, 1999).
No entanto, estas actividades não são, nesta fase, reconhecidas como manifestações precoces da sexualidade e, portanto, não são reprimidas pelos adultos, pois a sociedade não reconhece o exercício da sexualidade não genitalizada.

Um outro aspecto importante e fundamental da sexualidade infantil são as relações entre o bebé e os adultos que lhe estão próximos (as figuras de apego. com as quais se operam os processos de vinculação). O apego, de acordo com Bowlby (1969), citado por Montagner (1993), é um sistema que garante os vínculos entre os progenitores e as crias, com fins de sobrevivência, mas que no ser humano tem um papel crucial. Bowlby entende a vinculação como a capacidade inata dos recém-nascidos se ligarem aos adultos que lhe estão próximos, sobretudo os que dele cuidam no dia-a-dia.
O bom desenvolvimento depende da qualidade dos vínculos, que por sua vez mediatizam a sexualidade ao longo de toda a vida e, muito particularmente, durante a primeira infância (Felix. 1995; Lopez & Fuertes, 1999).

A teoria da vinculação de Bowlby ajuda a compreender a nossa capacidade futura de estabelecer relações com boa qualidade afectiva através de padrões de vinculação seguros, o que significa um bom nível de auto-estima e um grau adequado de confiança nos outros (Strecht, 2001). O vínculo afectivo entre a criança e o adulto que a cuida (apego) implica sentimentos, comportamentos e um conjunto de expectativas que se forma durante o primeiro ano de vida.
Na experiência relacional com as figuras de apego, a criança adquire:
a confiança e a segurança que lhe permite abrir-se a contactos com o meio envolvente;
o uso e o significado de formas de comunicação íntimas e informais;
o uso e o significado de expressões emocionais; e
a capacidade de explicitar as suas necessidades, bem como a de satisfazer as necessidades dos outros.

Ao generalizarem estas experiências, as crianças vão posteriormente utilizálas em outras relações sociais, nomeadamente naquelas que impliquem afectos e formas de comunicação íntimas, como o namoro, as relações sexuais e a amizade (Félix, 1995, Lopes&Fuentes, 1999).

De uma forma simplificada e resumida, podemos dizer que as principais características da sexualidade nesta idade são:
1. Importância das figuras de apego nos processos de vinculação.
2. Actividades íntimas de satisfação oral ? mamar, chupar no dedo ? que podem ser entendidas como actividades eróticas não genitais.
3. Reconhecimento dos papéis sexuais, estabelecendo a diferença dos papéis atribuídos a um ou ao outro sexo.

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Objectivo Mínimos da Ed.Sexual (por Ciclo)

1.º ciclo (1.º ao 4.º anos)

- Noção de corpo;

- O corpo em harmonia com a Natureza e o seu ambiente social e cultural;

- Noção de família;

- Diferenças entre rapazes e raparigas;

- Protecção do corpo e noção dos limites, dizendo não às
aproximações abusivas.


2.º ano
- Para além das rubricas incluídas nos programas de meio físico, o professor deve esclarecer os alunos sobre questões e dúvidas que surjam naturalmente, respondendo de forma simples e clara.


3.º e 4.º anos
- Para além das rubricas incluídas nos programas de meio físico, o professor poderá desenvolver temas que levem os alunos a compreender a necessidade de proteger o próprio corpo, de se defender de eventuais aproximações abusivas, aconselhando que, caso se deparem com dúvidas ou problemas de identidade de género, se sintam no direito de pedir ajuda às pessoas em quem confiam na família ou na escola.


2.º ciclo (5.º e 6.º anos)
- Puberdade — aspectos biológicos e emocionais;

- O corpo em transformação;

- Caracteres sexuais secundários;

- Normalidade, importância e frequência das suas variantes
biopsicológicas;

- Diversidade e respeito;

- Sexualidade e género;

- Reprodução humana e crescimento; contracepção e
planeamento familiar;

- Compreensão do ciclo menstrual e ovulatório;

- Prevenção dos maus tratos e das aproximações abusivas;

- Dimensão ética da sexualidade humana.


3.º ciclo (7.º ao 9.º anos)
- Dimensão ética da sexualidade humana:

- Compreensão da sexualidade como uma das componentes
mais sensíveis da pessoa, no contexto de um projecto de vida que integre valores (por exemplo: afectos,ternura, crescimento e maturidade emocional, capacidade de lidar com frustrações, compromissos, abstinência voluntária) e uma dimensão ética;

- Compreensão da fisiologia geral da reprodução humana;

- Compreensão do ciclo menstrual e ovulatório;

- Compreensão do uso e acessibilidade dos métodos contraceptivos e, sumariamente, dos seus mecanismos de acção e tolerância (efeitos secundários);

- Compreensão da epidemiologia das principais IST em Portugal e no mundo (incluindo infecção por VIH/vírus da imunodeficiência humana — HPV2/vírus do papiloma humano — e suas consequências) bem como os métodos de prevenção.

- Saber como se protege o seu próprio corpo, prevenindo a violência e o abuso físico e sexual e comportamentos sexuais de risco, dizendo não a pressões emocionais e sexuais;

- Conhecimento das taxas e tendências de maternidade e da paternidade na adolescência e compreensão do respectivo significado;

- Conhecimento das taxas e tendências das interrupções voluntárias de gravidez, suas sequelas e respectivo significado;

-Compreensão da noção de parentalidade no quadro de uma saúde sexual e reprodutiva saudável e responsável;

- Prevenção dos maus tratos e das aproximações abusivas.

Ensino secundário
- Compreensão ética da sexualidade humana.

- Sem prejuízo dos conteúdos já enunciados no 3.º ciclo,sempre que se entenda necessário, devem retomar -se temas previamente abordados, pois a experiência demonstra
vantagens de se voltar a abordá -los com alunos que, nesta
fase de estudos, poderão eventualmente já ter iniciado a vida sexual activa. A abordagem deve ser acompanhada por uma reflexão sobre atitudes e comportamentos dos
adolescentes na actualidade:

- Compreensão e determinação do ciclo menstrual em geral, com particular atenção à identificação, quando possível, do período ovulatório, em função das características dos ciclos menstruais.

- Informação estatística, por exemplo sobre:
-Idade de início das relações sexuais, em Portugal e na UE;
- Taxas de gravidez e aborto em Portugal;
- Métodos contraceptivos disponíveis e utilizados; segurança
proporcionada por diferentes métodos; motivos que
impedem o uso de métodos adequados;
- Consequências físicas, psicológicas e sociais da maternidade
e da paternidade de gravidez na adolescênciae do aborto;
- Doenças e infecções sexualmente transmissíveis (como
infecção por VIH e HPV) e suas consequências;
- Prevenção de doenças sexualmente transmissíveis;
- Prevenção dos maus tratos e das aproximações abusivas.

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